Professor-estresse: análise
de produção científica III
Estresse e Professor
O
segundo grupo de trabalhos é composto pelos que enfocaram mais
especificamente o estresse e as condições estressoras
relacionadas com o professor, como se evidencia nos trabalhos
arrolados a seguir.
Ostroff
(1992) investigou as relações entre satisfação do trabalhador,
atitudes relacionadas ao trabalho (comedimento, ajustamento,
estresse psicológico e desempenho organizacional). Os dados foram
colhidos em 298 escolas secundárias e os instrumentos aplicados em
13.808 professores que nelas trabalhavam. A análise correlacional
mostrou significância nas relações de estresse com as outras
variáveis estudadas. Isto tem implicações para o gerenciamento das
condições de ensino. É necessário garantir condições de adaptação
que atendam à variedade interna e externa, assegurando melhores
condições de eficiência aos professores no seu trabalho.
Um
estudo longitudinal foi realizado por Sehonfeld (1996). Trabalhou
com 250 professores tendo por objetivo analisar a influência da
afetividade negativa no autorelato de resultados psicológicos e de
medidas ambientais. Os resultados mostraram que as medidas
ambientais estavam moderadamente relacionadas com sintomas
depressivos pós-trabalho e que a satisfação no trabalho em todas as
sub-amostras relacionou-se com as medidas ambientais. A motivação
mostrou-se correlacionada na sub-amostra de professoras brancas, mas
não nas negras e de origem hispânica. As correlações e coeficientes
de regressão foram altos. Os resultados sugerem que não houve
distorção da relação estudada nos autorelatos de sintomas
depressivos, de satisfação e de motivação. A afetividade negativa é
variável relevante no estresse manifestado especialmente pelas
professoras brancas.
A
pesquisa de Parkes (1990) teve por finalidade testar a hipótese de
que o enfrentamento direto pode moderar os efeitos das relações
entre estresse no trabalho e saúde mental resultante. Entretanto, a
supressão (forma focal de enfrentamento) pode ter um efeito geral no
resultado. Sua pesquisa foi realizada com 157 professores em
treinamento, cruzando-se dados de enfrentamento, demandas e apoios
percebidos no trabalho e sintomas afetivos. Os resultados
confirmaram as hipóteses iniciais. Foram verificadas também
diferenças de gênero, com os homens usando mais supressão do que as
mulheres. A afetividade negativa apareceu como uma variável que
engloba o índice de reatividade nas relações estresse-resultado. O
índice de reatividade atua em associação com as percepções sobre o
trabalho e os sintomas afetivos. Todavia, é um moderador que não
atingiu o nível de significância. Os docentes com alto índice de
afetividade negativa demonstraram maior reatividade negativa às
exigências ou demandas do trabalho do que o fizeram os professores
com baixa afetividade negativa, predispondo os primeiros ao estresse.
O
trabalho de De Mulder, Denham, Schmidt, e Mitchell (2000) enfoca as
relações entre os comportamentos de segurança demonstrados na
relação mãepré- escolar, as condições estressantes da família e as
relações das crianças com a professora e os colegas na escola. Seus
resultados mostraram que em famílias com baixo nível de estresse, os
filhos apresentavam melhor relação com as mães; famílias com alto
nível de estresse tinham filhos com maior incidência de medo,
agressão e problemas de competência social. Meninos com melhor
relação com as mães também apresentavam melhor relação com as
professoras e eram mais populares com seus colegas. Neste último
caso, são menos estressantes para os professores.
Especificamente em relação ao professor, os autores verificaram que
a segurança junto às mães era mais importante para os meninos do que
para as meninas no estabelecimento da segurança junto aos
professores. Para os meninos foi encontrada uma relação linear entre
relação com a mãe e relação com a professora. Essa relação não
ocorreu entre as meninas. Estudaram estas relações como variáveis
geradoras de estresse entre os docentes.
Taris,
Peeters, Le Blanc, Schreurs e Schaufeli (2001) estudaram o
esgotamento (burnout), entendido como exaustão emocional,
despersonalização e falta de realização pessoal em duas amostras de
professores alemães, uma com relato de estresse decorrente do
trabalho e outra sem este tipo de problema. Os docentes estressados
compunham três grupos distintos quanto aos estressores: alunos,
colegas e escola de um modo geral. Verificou-se que os estressores
não afetam igualmente todos os professores, uns são mais afetados
pelos colegas, outros pelos alunos e outros pela escola de uma forma
global.
O estudo
teve abrangência nacional e trabalhou com a teoria de Lazarus
(1966). (De Longis, Folkman & Lazarus, 1988; Lazarus, 1966, 1982).
Consideram o estresse como uma forma de relação da pessoa com o
ambiente em que este a pressiona além de suas possibilidades de
superar, para as autoridades significa que por essa razão a pessoa
apresenta um comportamento mal adaptado, respostas somáticas e
psicológicas inadequadas ao estressor como resultado de vivências
intensas e prolongadas que afetam suas reações, inclusive as
fisiológicas. No âmbito do trabalho, as pessoas que sentem não ter
ou ter poucos recursos para atender às demandas ou exigências do seu
trabalho ficam estressadas. É necessário buscar a equidade entre a
demanda e as possibilidades do trabalhador para manter a relação em
nível adequado.
Taris e
cols. (2001), em um primeiro estudo, verificaram entre 312
professores secundários da Alemanha falta de reciprocidade entre
eles ou ineqüidade entre os mesmos como geradora de estresse, tendo
encontrado esta situação sendo vivenciada por 271 deles.
Em um
segundo estudo de caráter longitudinal acompanharam uma amostra
representativa (N=1309) de docentes do ensino primário e secundário
da Alemanha. Verificaram que a ausência ou ineficiência de sistemas
de recompensas, a falta de investimento no professor e a falta de
reciprocidade entre demanda e possibilidade de atendê-la estão
altamente correlacionadas com o estresse, com conseqüente abandono
do trabalho.
Westman
e Etzion (1999) analisaram as condições de estresse vivenciadas por
47 diretores e 183 professores de escolas de Israel. O objetivo era
verificar se a existência de estresse entre casais também aparecia
no local de trabalho e os mecanismos subjacentes ao cruzamento do
estresse em duplas (diretor vs professor). Verificaram significância
no estresse induzido pelo trabalho, mas não em esgotamento (burnout)
resultante da relação professor-diretor e vice-versa. Houve
significância no cruzamento entre estresse no trabalho e na família.
Steptoe,
Cropley e Joekes (2000), retomando estudos que mostram associação
entre reações cardiovasculares e pressão sangüínea com testes de
estresse, estudaram a questão em 102 professoras e 60 professores
submetidos a tarefas de alta e baixa demanda em condições
padronizadas, usando monitoramento biológico durante todo o período
do trabalho. Verificaram que as medidas de estresse permaneciam
baixas e constantes durante o dia inteiro incluindo interações de
baixa demanda. As reações e as situações de baixa demanda se
mostraram preditivas quanto à pressão sangüínea e ao ritmo cardíaco,
independentemente da linha de base, idade, gênero e massa corporal.
As medidas tomadas quando os participantes estavam sentados foram
mais consistentes do que quando estavam em pé. As associações
laboratoriais medidas sugerem que dependem da conseqüência entre
situação estressante e nível da atividade em que o professor se
envolve.
Para
evitar o estresse em professoras de escola elementar (N=10) de
Quebec, foi usado um procedimento de observação e análise de suas
atividades enquanto lecionavam. Messing, Seifert e Escalona (1991)
observaram os docentes durante 48 horas e 24 minutos buscando
identificar os elementos estressores e os recursos usados pelos
docentes para evitar o estresse. Verificaram que os docentes usam
diversas estratégias para reduzir o impacto dos estressores, entre
os quais registraram: mudanças bruscas nas seqüências de ação,
fixação dos olhos por breve lapso de tempo, rápido relaxamento
físico ou mental, desenvolvimento simultâneo de muitas atividades,
níveis de temperatura e umidade desconfortáveis. O empenho dos
professores para redução do estresse inclui o uso variado de
estratégias de ensino para criar um ambiente de aprendizagem e para
manter a atenção dos alunos sob condições adversas. O exame destas
estratégias levaram as autoras a recomendar a melhoria das relações
entre professores e supervisores para que estes os ajudem a tornar a
sala de aula um lugar mais fácil de ensinar. É uma forma de reduzir
o estresse do docente.
Sonnentag (2000) estudou o uso de tempo de lazer e a recuperação do
trabalho tendo em vista o bem estar das pessoas. Seus sujeitos foram
100 professores alemães que fizeram um diário de suas atividades de
lazer por um período de cinco dias e responderam a um questionário
sobre o trabalho. A autora concluiu que seu estudo mostrou que as
atividades de lazer e o nível de estresse baixo na situação de
trabalho contribuem independentemente para o bem estar das pessoas.
O
trabalho de Bonanno e Kaltman (1999) diz respeito a uma Perspectiva
Integrativa sobre a perda (ou luto), problema com o qual
eventualmente o professor se depara, quer em sua vida pessoal, quer
no que diz respeito a seus alunos. Só superficialmente enfocam a
questão no que concerne ao mundo escolar. Todavia, é uma proposta
teórica muito rica e com grande potencial. O esforço de análise dos
autores emergiu do fato de ter decorrido quase um século que os
teóricos sobre a matéria tecem considerações, afirmam que a perda
requer sempre um período em que se trabalhe a tristeza com o
objetivo de romper os elos de ligação com o falecido. As revisões
feitas dos anos oitenta do século passado para cá surpreenderam os
autores pela falta de suporte empírico para esta perspectiva,
ficando-se com uma base teórica insustentável. Os autores propõem
uma alternativa de síntese unindo cognitivismo, teoria do apego,
teoria social da emoções e teoria do trauma, criando uma estrutura
de referência para pesquisas futuras mais plausível e consoante com
os dados de pesquisas na área.
É uma
proposta de unificação. Bonanno (2001) retoma a discussão face à
contestação que teriam ignorado o processo de esquiva para se
distanciar da perda. Enfatiza a falta de dados para sustentar a
contestação. Destaca que a leitura feita por eles valoriza a esquiva
como forma de distanciamento do processo o que não foi percebido
pelos seus opositores. Na base de dados apareceram também dois
textos teóricos trataram de assunto subjacente a atuação do
professor que ocasionalmente pode estar estressado. Pelo exposto é
evidente que embora se fale muito do estresse do professor e da
necessidade de uma devida prevenção e intervenção (Lipp, 2002) os
pesquisadores não estão dando a devida atenção ao problema.
De
acordo com os dados constantes na base pesquisada, o estresse do
professor tem sido pouco pesquisado enquanto profissional submetido
a condições estressoras, predominando os estudos em que atuam como
avaliadores destas condições e da presença do estresse entre alunos
e familiares. Estas considerações têm apoio no resultado encontrado
por Witter (2002a) no PsycLIT sobre prevenção de estresse em geral
(1994- 1999), no qual foram registrados apenas 12 trabalhos sobre
estresse profissional em um total de 1.639 trabalhos. Ao que tudo
indica, há necessidade de maiores investimentos na pesquisa na área
do que vem efetivamente ocorrendo.
CONCLUSÕES
Pelos
dados aqui apresentados é evidente que se está diante de uma área
extremamente carente de pesquisas. As pesquisas encontradas são
predominantemente descritivas não havendo praticamente produção que
teste a eficiência de programas de prevenção e de intervenção para
cuidar do estresse do professor. As situações de trabalho
responsáveis por um quadro exacerbado de estresse docente estão
requerendo pesquisas cuidadosas.
Usando
situações variadas, instrumentos diversos, problemas distintos, as
pesquisas que recorreram ao professor como avaliador foram
consistentes em mostrar que o docente é um juiz competente, um bom
avaliador do estresse e do comportamento emocional. Pesquisas
similares precisam ser realizadas no contexto brasileiro com
objetivo de verificar se aqui o professor demonstra esta competência.
A sugestão decorre das diferenças de formação do docente nos vários
países.
As
pesquisas do segundo grupo enfocam variáveis muito diversificadas,
instrumentos distintos de avaliação, são de tipos variados,
predominantemente descritivas e os resultados não são coincidentes.
Parecem refletir uma falta de metas para a pesquisa, a falta de
continuidade nos projetos. Embora sejam pesquisas de mérito, não
permitem estruturar um quadro claro do estresse do professor e das
variáveis relevantes.
São
pérolas esparsas, como se pode deduzir dos resumos apresentados. Não
há coesão metodológica, de objetivos ou de resultados. Possivelmente,
a impossibilidade de compor um quadro consistente decorre do pouco
que já foi efetivamente pesquisado.
Parkes
(1990) relata que as “relações entre percepções do ambiente de
trabalho e autorelato de saúde mental e física estão amplamente
documentadas na literatura. Muitas das pesquisas nesta área são de
correlação de partes e, consequentemente, não permitem inferência
causal, mas resultados empíricos de estudos longitudinais apoiam a
perspectiva de que o ambiente de trabalho exerce uma influência
causal na saúde física e mental, incluindo tanto resultados a curto
e a longo prazo, afetando a saúde, particularmente no que concerne
às doenças cardiovasculares. Resultados destes estudos também
ilustram um processo no qual as percepções do ambiente de trabalho
medeiam os efeitos das características objetivas do trabalho nos
resultados relacionados com a saúde. Este processo não é invariante,
contudo, nos modelos teóricos e nos resultados empíricos, as
diferenças ocupam papel como determinantes da natureza e magnitude
das respostas ao estresse decorrente do trabalho” (p. 399).
Há que
se considerar a necessidade de se conhecer melhor as variáveis das
condições de trabalho que geram estresse no professor. Sem este
conhecimento é inviável planejar, executar e avaliar programas de
prevenção e de intervenção que realmente sejam eficientes. É
provável que a carência de pesquisas com tais programas não tenham
surgido nos dados aqui relatados em decorrência do nível de
conhecimento disponível. O predomínio de trabalhos de autoria
múltipla é um indício de que grupos de pesquisadores estão se
firmando na área, com tendência para maturidade. Todavia a natureza
e a temática dos trabalhos estão longe de dar conta do necessário
para sua evolução em profundidade e para suprir as necessidades
básicas de conhecimento na área.
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