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ARTIGOS EM PORTUGUÉS


Professor-estresse: análise
de produção científica II

Estresse/ Professor: produção no PsycArticle

Seria de se esperar que a produção científica focalizasse a promoção da saúde do professor, a prevenção de problemas como o estresse, sua satisfação com o trabalho, a remediação ou solução de seus problemas biopsicológicos em programas de intervenção, bem como a avaliação, tanto dos programas de prevenção como de remediação. Além disso, espera-se que sejam trabalhadas as conseqüências do estresse do professor para ele próprio, para o aluno, para o processo ensino-aprendizagem para a escola como um todo (Witter, 2002a). Alguns destes aspectos são destacados nos trabalhos teóricos organizados por Lipp (2002).

A fim de dispor de um quadro de referência sobre a produção científica envolvendo o professor e o estresse foi feita uma pesquisa no PsycArticle, base de dados gerenciada pela American Psychological Association, que cobre a publicação efetivada via 47 periódicos de maior relevância na Psicologia. A solicitação foi feita tendo por quesito a relação professor-estresse, cobrindo o período de 1987 até 2002 (janeiro/fevereiro). Foram localizados apenas 30 documentos indicando que, a despeito de se reconhecer a importância da matéria, ela tem sido pouco pesquisada. O quadro revelou-se ainda mais negativo quando se constatou que dois textos não diziam respeito à temática em estudo neste trabalho conforme é explicitado a seguir.

Embora muito interessante, o trabalho de Townsend, Hicks, Thompson, Wilton, Tuck e Moore (1993) tem quase nada em comum com o tema aqui enfocado. Refere- se à ênfase dada pelos professores na introdução e conclusão de textos informativos e argumentativos, cujas estruturas retóricas influem na compreensão do texto. Verificaram a qualidade das conclusões. Possivelmente a recuperação na base de dados incluiu o trabalho de Townsed e cols. (1993) porque no resumo aparece: “Teachers... stress the importance of...” Pelo exposto, excluiu-se da análise o trabalho aqui referido.

Também foi excluído da análise um trabalho sem autor que apresenta síntese dos currículos dos homenageados de 1993 pela APA, ou seja, Meehl e Spielberger, sem relação com o aqui estudado. A inclusão deveu-se à ênfase (stress) do evento nas realizações dos homenageados. Essas exclusões atestam problemas ainda não solucionados pelos cientistas da informação e bibliotecários na alimentação das bases de dados. Servem também de alerta aos pesquisadores que recorrem freqüentemente às bases bibliográficas quanto a possíveis distorções no processo de inclusão de textos nas bases. Dessa maneira ficou-se com 28 trabalhos para serem analisados. Os mesmos compreendem o período de 1988 até 2001, já que em 1987 nenhum trabalho foi incluído na base pesquisada.

Considerando que, em metaciência, a autoria é um bom indicativo de desenvolvimento, que a autoria múltipla é forte indício de grupos de pesquisa, com maior potencial de avanço que o trabalho isolado, foi feita a análise deste aspecto. Também enfocou-se o gênero dos autores. Posto que a docência é uma profissão predominantemente feminina, pareceu de interesse verificar se a mulher também prevalece no campo da pesquisa sobre o professor.

Os resultados aparecem na Tabela 1. Apenas sete trabalhos eram de autoria única sendo os demais de autoria múltipla, portanto é significativa a concentração nos trabalhos realizados em equipe (χ²o= 40,96, n.g.l.=1, χ²c=3,84). Este resultado é positivo e na direção esperada em termos de desenvolvimento científico. Não houve necessidade de cálculo quanto ao gênero já que foi igual no total, ou seja, 28 homens e 28 mulheres produzindo na área, além de 10 autores para os quais não foi viável identificar o sexo.

 

Foi feita também uma análise da temática enfocada nos referidos artigos, começando pelos participantes estudados. Em 15 trabalhos, além do professor, os alunos também mereceram a atenção dos pesquisadores, por vezes sendo o alvo principal; em cinco os pais também participaram, além de outros personagens menos freqüentes. O professor propriamente dito foi objeto de atenção direta ou indireta nos 28 estudos, justificandose assim a inserção do trabalho na base.

A quase totalidade dos trabalhos constituiu-se de estudos descritivos da relação de estresse aqui focalizada, apenas dois enfocaram o efeito da atuação do docente e em várias pesquisas os professores serviram como juízes avaliando o estresse ou o resultado de condições estressoras ou remediativas deste problema nos alunos. Face ao número limitado de trabalhos, foi possível fazer uma síntese dos mesmos para melhor explicitação da temática para os leitores. No primeiro bloco aparecem os textos em que o docente assume o papel de avaliador, no segundo os trabalhos que enfocam mais diretamente o estresse do professor.

Professor-avaliador

O professor-avaliador é integrante dos estudos a seguir descritos. Alguns deles enfocam o estresse póstraumático, sendo que o docente também pode aparecer como membro da equipe de intervenção.

Considerando que desastres naturais são eventos que geram estresse pós-traumático com conseqüências psicológicas, Olson (2000) lembra que, a partir do começo da década de oitenta, do século passado, surgiram serviços especializados na área (Disaster Mental Health Services – DMHS) sendo hoje, nos USA, a 5ª maior divisão entre as várias organizações de voluntários, sendo treinados pela Cruz Vermelha Americana. Em 1982, a American Psychological Association recrutou psicólogos para atuar nos grupos de DMHS e, em 1991, em conexão com o APA’S Disaster Response Network, criou em 50 estados grupos treinados para atuar nos DMHS. Esses grupos reúnem e treinam outras pessoas. O autor relata rapidamente a atuação de um desses grupos envolvendo alunos e professores que atuaram em um grande desastre. Não há qualquer informação mais relevante do que o fato de docentes terem se envolvido, após o treinamento, na avaliação e no atendimento ao público estressado.

O estresse pós traumático em 92 crianças (da 4ª série do 1º grau) que vivenciaram o Furacão Andrew foi estudado por La Greca, Silverman e Wassertein (1998). Dispunham de medidas anteriores ao evento indicando ansiedade (auto-relato), avaliação de problemas comportamentais (ansiedade, desatenção, comportamento) feita por colegas e professores. Decorridos 3 e 7 meses após o desastre repetiram as medidas. Os sintomas de estresse pós-traumático pela exposição ao desastre natural ainda estavam presentes e afetando as habilidades acadêmicas. Aqui o professor aparece apenas como um avaliador do estresse na criança.

A mesma posição como participante-juíz ocupam os professores que participaram do trabalho de Hahn e DiPietro (2001), que avaliaram às cegas o comportamento de mães de crianças resultantes de fertilização artificial (N=54) e mães de crianças concebidas normalmente (N=54). Os alunos tinham entre três e sete anos de idade. Os professores consideraram as mães do primeiro grupo mais amorosas, mas não superprotetoras ou impositivas. Elas avaliaram seus filhos como tendo menos problemas do que as crianças do grupo de controle.

Cresce a concordância de que, no atendimento (clínico ou não) de uma criança ou de um jovem, é necessário contar com informações de várias fontes, estabelecer a validade das mesmas para superar obstáculos técnico-científicos e profissionais. Há muita controvérsia sobre a validade das diversas fontes de informação. Youngstrom, Loeber e Stouthamer-Loeber (2000) lembram que clínicos e pesquisadores tendem a perceber o autorelato feito por jovens como a fonte de menor relevância para avaliar hiperatividade, desatenção, oposição. Neste caso os professores parecem oferecer dados mais seguros. Todavia, quando se trata de conhecer os problemas internos, os próprios jovens e os empregados que cuidam deles são melhores que os professores. Na opinião dos autores houve falhas na avaliação. Isto levou os autores a estudarem os padrões de concordância entre pais, professor e aluno adolescente no externalizar/internalizar seus problemas. Examinaram 394 tríades de jovens masculinos, seus cuidadores e professores quanto à concordância no uso de uma escala que avalia problemas de jovens. Os professores relataram poucos problemas de internalização e exteriorização, menos do que fizeram os jovens e os seus cuidadores. Os professores avaliaram de forma diferente em função do grupo étnico do aluno. Parece haver um crescente acordo entre os pesquisados quanto à ocorrência de depressão e estresse no que concerne ao nível dos problemas, mas não aos padrões específicos dos sintomas. Os professores no presente estudo atuaram novamente como juizes e o foco foi sua competência como avaliador.

Gillmore e Guenwald (1999) discutem o possível viés de avaliação feita pelo próprio aluno, já que professores e pesquisadores freqüentemente consideram que os alunos não fazem boa auto-avaliação, nem avaliam corretamente as condições de ensino. Revendo a literatura científica sobre a matéria, mostram que tal conclusão é pelo menos apressada, em certos casos, pois não há dados consistentes. Lembram que a avaliação pelos alunos pode ser útil para o professor melhorar seu ensino, por exemplo, evitando indicar procedimentos estressores, exagero de leitura, pouco tempo para análise de matéria mais difícil. Trata-se de trabalho teórico em que o papel de avaliador assumido pelo professor e pelo pesquisador é o foco principal.

Webster-Stratton (1988) estudou 120 mães, 80 pais e 107 professores. Seu objetivo era comparar como percebem problemas de comportamento da criança e ajustamento do casal. Encontrou correlações entre como professores e pais avaliam as crianças, mas não com o como as mães o fazem. Mães estressadas ou deprimidas devido a problemas conjugais tenderam a perceber mais comportamentos desviantes entre seus filhos e tenderam a interagir com eles de forma mais autoritária e crítica. Os pais apresentaram um comportamento diferente, perceberam os filhos e tenderam a se comportar em relação a eles de maneira pouco afetada pelo seu próprio ajustamento pessoal, ou seja, são menos afetados pelas suas variáveis pessoais, nos seus julgamentos e nas suas relações com os filhos. Foram menos subjetivos. Possivelmente, isto os aproximou mais das avaliações do docentes.

McKinnon-Lewis (1994) examinou a extensão em que comportamentos hostis e coercitivos das mães e filhos estão associados aos índices de agressão, aceitação e competência social. Recorreu à avaliação pelo professor. Selecionou 104 mães de crianças entre 7 e 9 anos que tinham apresentado agressão em sala de aula. Os meninos, que vivenciaram vários eventos estressantes e eram coercitivos com suas mães, foram avaliados pelos professores como sendo mais agressivos e menos competentes do que seus colegas. A agressão parece ser uma resposta mediadora entre o estresse vivenciado pelo aluno e seu comportamento em relação aos colegas. Novamente, é o papel de docente-avaliador o assumido pelo professor em busca de conhecer o estresse do aluno.

Comportamentos antissociais no ambiente de trabalho estão cada vez mais freqüentes incluindo-se aqui as escolas. Sinclair, Martin e Croll (2002) examinaram os estímulos antecedentes e os conseqüentes a comportamentos antissociais apresentados em uma escola pública urbana e compararam professores vs não professores, escola média vs superior vs fundamental quanto à perspectiva de perigo face ao referido tipo de comportamento. Verificaram que a avaliação de possibilidade de perigo, da relação presença de comportamento antissocial e satisfação no trabalho, influem indiretamente na intenção e mudança de trabalho, havendo consistência em todos os níveis de escolaridade. Recomendam que os professores sejam ouvidos e sejam tomadas medidas administrativas que garantam a segurança, uma vez que os docentes se mostraram avaliadores muito competentes.

Uma outra pesquisa em que o professor foi o avaliador de comportamentos de seus alunos é a realizada por Alpert-Gillis, Pedro-Carrol e Cowen (1989). Nesse trabalho, crianças filhas do divórcio foram submetidas a um programa em que aprenderam a buscar e a atuar como grupo de apoio, expressar seus sentimentos em relação ao divórcio, compreender os conceitos relacionados a esta situação, desenvolver habilidades para resolver problemas e foram fortalecidas as percepções de si mesmo e da família. As crianças treinadas foram comparadas com um grupo não treinado de filhos do divórcio e com crianças de lares completos. Os professores avaliaram o comportamento das crianças antes e após o treino. Verificou-se que no grupo experimental houve progresso em competência social alcançando nível de significância pré-estabelecido, o que não ocorreu nos dois grupos de comparação. Verificaram progresso em todos os grupos para tolerância à frustração, assertividade e habilidades sociais no contato com os pares. Todavia, só para o grupo experimental em todas as avaliações houve progresso que atingiu o nível de significância.

Saigh (1989) também recorreu aos professores para avaliarem as crianças de sua pesquisa, tomando a avaliação feita pelos mesmos como critério. Os docentes usaram a Conners Teacher Rating Scale. O pesquisador trabalhou com três grupos: 231 crianças com estresse pós-traumático, 32 com fobia simples e 35 sem problemas clínicos (grupo de controle). Encontrou diferenças de gênero e grupo, sem efeito de interação, sendo mais grave a situação dos sujeitos com estresse pós-traumático, seguido dos fóbicos que também eram mais problemáticos que os de controle, mas sem serem significantemente diferentes. Outra vez a relação professor- estresse se restringe ao papel de avaliador.

A habilidade preditiva de professores, mães e pais quanto à presença e à evolução de problemas comportamentais em pré-escolares, em decorrência das relações ou comportamentos dos pais (gênero masculino), foi testada comparando-se pais com e sem problemas. Os dois grupos de pais diferiram estatisticamente em estresse, sintomas psicológicos, atitudes parentais, envolvimento positivo e tipo de disciplina. Só não diferiram em apoio social. Os professores avaliaram corretamente a severidade do problema clínico nos alunos, um ano antes perceberam o estresse dos pais e os seus sintomas psicológicos, bem como quando tinham um envolvimento positivo com os filhos. As mães apresentaram autorelatos com melhor previsão clínica, o mesmo não ocorrendo com os pais. Os professores-avaliadores mostraram alta eficiência na avaliação do estresse infantil, sendo superiores aos pais e mães.

Caplan, Weissberg, Grober, Sivo, Grady e Jacoby (1992) recorreram a avaliações feitas por docentes para analisar o efeito de um programa de 20 sessões aplicado a alunos do 6º e 7º graus, num total de 282, viciados em álcool e outras substâncias. O programa enfocou: manejo do estresse, auto-estima, solução de problemas, informação sobre saúde e drogas, assertividade e redes sociais. As avaliações feitas pelos professores mostraram que os sujeitos progrediram na resolução de conflitos com os colegas, controle da impulsividade, avanço na popularidade pessoal. Concordam com resultados de outras pesquisas quanto à competência avaliativa do professor.

Trabalho similar realizado por Mesman e Koot (2000) comparou avaliações feitas por professores e pais para analisar a avaliação feita pelos docentes em relação aos avanços quanto a aspectos psicopatológicos. Encontraram similaridade nas avaliações de um modo geral. Na mesma direção os resultados do trabalho de Bates, Marvinney, Kelly, Dodge, Bennett e Pettit (1994) apareceram. Os autores compararam as histórias de 589 crianças relatadas pelos pais antes de entrarem na préescola com avaliações feitas por professores, colegas e observadores quanto ao afastamento social. Os professores novamente aparecem como bons avaliadores.

Outro estudo em que o professor foi apenas avaliador dos sujeitos principais (adolescentes) foi o realizado por Iram e Cole (2000). Participaram professores, colegas e os próprios adolescentes. Os adolescentes se auto-avaliaram quanto aos eventos estressores que os afetavam e como percebiam sua competência, sendo esta também avaliada pelos professores e colegas quanto a sintomas de depressão. Os eventos estressantes negativos estão relacionados com a depressão. A competência autopercebida serve de mediador, mas não de moderador desta relação. Eventos negativos permitem prever mudanças na forma como o adolescente percebe sua competência. Quando há redução na competência pode-se prever o aparecimento de depressão, que pode ser diminuída quando se controla a competência autopercebida. Os professores foram avaliadores efetivos.

Allison e Furstenberg (1989) estudaram o efeito da dissolução do casamento em 1197 crianças, variando em sexo e idade. Para tanto recorreram aos pais, professores e à própria criança para relatarem a influência da separação nos problemas comportamentais, estresse psicológico e desempenho acadêmico. De um modo geral, a dissolução do casamento teve efeitos negativos em todas as áreas, tendendo a ser pior entre as crianças mais jovens e entre as meninas. Houve concordância entre as avaliações.

Stipek, Weiner e Li (1989) recorreram a avaliações de professores para comparar com as auto-avaliações de universitários quanto às relações atribuições-emoções e para selecionar alunos mais e menos esforçados, comparando grupos de universitários norte-americanos e chineses. Os resultados referem-se exclusivamente aos dados dos alunos. A partir dos cinco estudos realizados, concluíram que os chineses destacaram o esforço como a causa da realização alcançada como resultado, mas os dados não são conclusivos quanto à teoria da atribuição. Este é mais um trabalho em que o professor aparece como eficiente juiz avaliador de emoções de seus alunos e não como portador de estresse.

Em resumo, os trabalhos descritos mostram que o professor é um avaliador competente no que concerne a aspectos relacionados com as emoções e o estresse em seus alunos e respectivos familiares. Todavia, é necessário cautela na generalização, uma vez que são docentes de países nos quais o professor tem formação em nível superior e há exigências de pós-graduação em muitos deles.

Professor-estresse: análise
de produção científica III

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