O VALOR DAS
INTERAÇÕES SOCIAIS PARA A
APRENDIZAGEM DA LEITURA E DA ESCRITA
Autora,MACHADO, Laêda
Bezerra. Professora Assistente I do Departamento de Administração
Escolar e Planejamento Educacional do Centro de Educação da UFPE.
Endereço: Rua Dr.
Virgínio Marques, 285 aptº 101. Iputinga. Recife-PE. Fone: 453-2767
Introdução
Já é comum no meio
educacional afirmar-se que as interações sociais são importantes
para o processo de aprendizagem; este trabalho procurou explicitar
como, de fato, interações sociais estabelecidas entre as crianças e
destas com o adulto podem contribuir para emergência de
conhecimentos mais complexos durante o processo de aprendizagem. É a
teoria de Vygotsky que orienta esta investigação.
Tendo como ponto de
partida esta teoria, a partir do final da década de oitenta, a
alfabetização vem sendo pensada numa perspectiva em que, além de se
valorizar a construção do conhecimento da leitura e escrita como
objetos lingüísticos complexos, tem se dado especial importância à
interação social como motor dessa construção. Desse modo, apropriar-se
desse conhecimento exige diálogo, interlocução e confronto de pontos
de vista entre os sujeitos envolvidos no processo, permitindo-lhes
reconstruir a nível individual as informações recebidas no contexto
social.
Uma experiência de
alfabetização na abordagem sócio-interacionista
A alfabetização na
perspectiva sócio-interacionista baseia sua ação pedagógica na
proposição de atividades significativas e desafiadoras que favorecem
o emergir dos conhecimentos do grupo permitindo a ampliação do
universo simbólico dos sujeitos. Para se consolidar um trabalho
dessa natureza na sala de aula é necessário, segundo SMOLKA (1988),
que se estabeleça um clima de segurança, incentivo ao diálogo e
intercâmbio de idéias não no sentido de homogeneizar os
conhecimentos, mas para propiciar o desenvolvimento de todos os
envolvidos no processo.
Vários trabalhos
desenvolvidos no Brasil como Davis et alii (1989), Esteban (1992 e
1996), Garcia (1992 e 1993), Smolka (1988) Smolka e Góes (1992) vêm
fornecendo ricos subsídios à compreensão do processo de
alfabetização. O presente trabalho procura oferecer uma contribuição
nesse sentido: trabalhando-se com produção coletiva de textos buscou-se
investigar no cotidiano de sala de aula o valor das interações
sociais para a aprendizagem da leitura e da escrita.
Para sua realização
elaborou-se uma proposta de atuação durante dois meses (duas vezes
por semana) junto a uma turma de alfabetização de uma escola pública
da rede estadual na cidade do Recife. A referida turma era composta
por crianças de famílias de baixa renda, provenientes, em sua
maioria, de uma favela próxima. Estavam matriculados nesta turma 23
alunos, cujas idades variavam entre 05 e 08 anos. Dos 22 que
freqüentavam apenas 13 cursaram o pré-escolar e o restante estava
vindo à escola pela primeira vez.
No desenvolvimento da
proposta, registrada em vídeo, além do freqüente incentivo ao
estabelecimento de interações sociais dos alunos entre si e destes
com o adulto pesquisador procurou-se, o mais possível, propiciar às
crianças o contato com materiais escritos. Foram realizadas inúmeras
atividades de leitura/escrita na turma destacando-se para análise
neste artigo apenas uma: produção coletiva de textos. Esta foi uma
das atividades mais comuns realizadas em sala. Os alunos, a partir
de uma conversa informal ou com base em uma seqüência de figuras,
construíam textos ditando-os para a pesquisadora escrevê-los no
quadro de giz.
A preocupação em
trabalhar com a atividade de produção de textos estava fundamentada
pressuposto de que as crianças, mesmo antes de ingressarem na escola
- por viverem num mundo urbano - já detêm um conhecimento do sistema
de lecto-escrita. Como coloca TEBEROSKY (1994), mesmo que sejam
provenientes de ambientes sociais desfavorecidos, as crianças não
são totalmente iletradas. Por conta disso, como acrescenta esta
autora, não saber ler e escrever, como também o desconhecimento dos
padrões formais do sistema de escrita, não são motivos para que a
escola se esquive de trabalhar com textos.
Resultados
Neste artigo analisa-se
alguns aspectos interacionais manifestados durante a produção do
texto "a abelha e o seu mel" (anexo), que contribuem de modo
decisivo para a apropriação coletiva do conhecimento. O processo de
construção do referido texto apresenta-se como um valioso
instrumento para se analisar os processos interacionais
estabelecidos entre parceiros e adulto, como: repetição, associação,
percepção de que a escrita serve para registrar a fala.
Repetição/associação
Durante o processo
interacional vivido nesta sala mostrou-se preponderante uma certa
necessidade por parte dos membros, qual seja, o compartilhamento do
saber com os parceiros. Esses comportamentos se tornaram claros nas
freqüentes repetições e associações presentes no decorrer da
construção do texto.
Sobre esses aspectos,
na discussão sobre animais úteis, temos o comportamento de três
alunos que repetindo sucessivas vezes que o "cachorro dá leite",
outros dois que repetem "cabra que dá carne e leite" e ,ainda,
um outro que freqüentemente repete que o mel serve para gripe.
Mescladas às repetições,
apareceram no decorrer da atividade, diferentes formas de associação.
Uma aluna, logo após ouvir alguém falar galinha, diz: "xô galinha"
e cacareja "có, có, có, ro, có". Em seguida, o colega,
que está ao seu lado, a acompanha cacarejando: "có, có, cu, ru,
cu". Este mesmo aluno, na seqüência da produção do texto,
aparece repetindo o nome do alimento fornecido pelo galo: "a
carne" e, automaticamente, associando: "O galo faz cu, cu, ru,
cu". Em seguida , há uma seqüência de associações feitas à
palavra caranguejo. Um aluno fala caranguejo e esta palavra é
associada a outras tantas: um aluno insiste em repetir "gramur"
(guaiamur), uma aluna grita: "siri", outro aluno fala:
tubarão e um outro prossegue repetindo: "siri, siri, siri".
Outras associações ocorrem imediatamente após uma criança falar:
"tia, tia, figo." Dois alunos próximos a ela dizem: "figo,
papa-figo". Os que estão próximos prosseguem falando palavras
como: coxa e asa. Um aluno, possivelmente orientado pela colega que
acabara de falar coxa, chama a atenção: "tia, osso, osso."
As repetições parecem
sugerir que as crianças comportam-se dessa maneira no intuito de
assegurar-se de um saber. Repetir nada mais é do que uma forma de
imitar o co-específico.
Ao repetir algo já
colocado por um colega, o parceiro contribui para reafirmar no grupo
a idéia do outro. As freqüentes repetições sugerem que o aluno ao
observar e repetir a resposta do colega está referendando o que foi
dito sem correr o risco de "errar".
A repetição pode ser
aqui tomada como imitação verbal na perspectiva walloniana (1986),
isto é, os alunos vão reafirmando o que já foi colocado pelos outros
o que aos poucos vai se consolidando no grupo. Uma repetição que não
é feita simplesmente de modo literal; geralmente o grupo se apodera
de uma idéia inicial modificando-a, resignificando-a e
reapresentando-a de maneira a possibilitar o enriquecimento do
texto.
A estratégia de
associação, tão comum no decorrer da construção do texto, revela um
outro modo de apropriação do conhecimento. A criança, ao estabelecer
associações, as mais diversas, procura trazer o conhecimento formal
para mais perto de si.. A criança pode estar trazendo o seu
conhecimento de mundo para a sala de aula através dos diferentes
tipos de associação. Na perspectiva piagetiana a atitude de associar
pode revelar uma tentativa de acomodar-se ao novo conhecimento que
se está tendo acesso. Nesse sentido pode-se inferir que o professor,
embora defendendo um conhecimento adequado à realidade do aluno,
pode estar desconhecendo o valor da estratégia de associação para a
construção do conhecimento.
A escrita vista pelos
alfabetizandos como instrumento de registro da fala
A colocação de uma
aluna "lê aí tia, lê aí tia, lê a í... os que tu botou",
referindo-se a lista de animais escrita no quadro, bem como o
comportamento de outra aluna, olhando para o quadro e falando
pausadamente: "bota tia, (...) e dor de cabeça", revelam que
as duas crianças, embora ainda sem saber ler e escrever
convencionalmente, possuem a clara convicção de que a escrita serve
para registrar a fala. Corroborando DIETZSCH (1989), as referidas
alunas demonstram como a fala é efêmera e como a escrita permanece e
registra para a posteridade o que se emite de forma verbal. Seus
comportamentos parecem também sinalizar que a atividade desenvolvida
em sala de aula está contribuindo para que os alunos possam
compreender a função social da escrita
À guisa de conclusão.
Pode-se depreender com base nos exemplos acima o quanto o processo
interacional incentivado em sala de aula contribui para a construção
do conhecimento.
Todos os procedimentos
didáticos utilizados para incentivar a construção do conhecimento de
leitura e escrita, valorizando as interações sociais em sala de
aula, demonstraram que o estabelecimento dessas interações, entre
parceiros e entre crianças e o adulto, durante o processo formal de
aprendizagem, contribuem de modo significativo para que a escola
exerça com maior propriedade a sua função, isto é, seja capaz de
transmitir os conhecimentos acumulados pela humanidade de maneira
viva e interessante, sobretudo, para as crianças de camadas
populares que são as mais penalizadas com o fracasso escolar.
Embora se reconheça que o fracasso na
alfabetização seja decorrente de uma conjunção de fatores os mais
diversificados, é possível afirmar que o incentivo ao
estabelecimento de interações sociais mais efetivas, dos
alfabetizandos entre si e destes com o adulto professor, poderá vir
a ser um caminho para a melhoria da qualidade da aprendizagem
durante o processo de alfabetização. Adverte-se, entretanto, que não
se está indicando o incentivo as interações sociais em sala de aula
como panacéia para o já tão debatido fracasso escolar; o que se
deseja salientar com este trabalho é que quando elas são propiciadas
o processo de ensino-aprendizagem parece trilhar por caminhos menos
tortuosos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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