O processo de adaptação ao ensino superior e o rendimento
acadêmico
The
influence of the undergraduate course adaptation process in the
academic achievement
Simone Miguez Cunha1;
Denise Madruga Carrilho2
Instituto Militar de Engenharia
RESUMO
Este
artigo busca estender o conhecimento das relações entre as primeiras
experiências do estudante no ensino superior e o sucesso acadêmico.
Dessa forma o objetivo do presente trabalho foi analisar em que
medida as vivências acadêmicas dos alunos ingressantes no ensino
superior se apresentam relacionadas com o rendimento acadêmico.
Participaram da pesquisa 100 alunos do primeiro ano do curso de
engenharia militar, com idades entre 16 e 24 anos. Para avaliar as
vivências acadêmicas utilizou-se o Questionário de Vivências
Acadêmicas (QVA) e para efeitos de avaliação do rendimento escolar
dos alunos utilizou-se três disciplinas que são essenciais à
formação do engenheiro, a saber: Física , Cálculo e Álgebra Linear.
Os resultados sugerem que o rendimento acadêmico pode ser afetado
pelas vivências dos estudantes à nível pessoal e de realização
acadêmica experimentadas no 1º ano do curso superior.
Palavras chaves: Adaptação acadêmica, Rendimento acadêmico,
Desenvolvimento psicossocial
ABSTRACT
This
paper aims to understand the knowledge of the relationships between
the first experiences of the undergraduate student and the academic
success. Therefore, the work analyzes in what degree the academic
experience of the first-year undergraduate students are related to
their academic performance. One hundred (100) students among 16 and
24 years old of the first year of the military engineer course
participated in the research. The Questionário de Vivências
Acadêmicas (QVA) was employed to analyze their academic experiences.
In addition, their reported grades on three courses essential to an
engineer major curriculum (Phisics, Calculus, and Linear Algebra )
were used to evaluate the effects on their overall academic
performance. The obtained results suggest that the student’s overall
academic performance may be affected by his/her personal life
experiences as well as his/her first-year academic achievement .
Keywords: Academic adaptation, Academic achievement,
Psychosocial development
INTRODUÇÃO
O ensino
superior ao longo das últimas décadas vem sofrendo com as acentuadas
mudanças da sociedade. Neste sentido a universidade necessita de uma
nova organização, englobando e resignificando a maneira da sociedade
produzir, criando e difundindo seus valores de forma a promover a
melhoria da condição humana em suas múltiplas dimensões (Cardoso,
2004). Para tanto é necessário que a universidade reveja seus
métodos, suas práticas, objetivos, currículo e até metodologias de
apredizagem.
Num
mundo extremamente competitivo, a universidade precisa se preocupar
com o estudante universitário, promovendo condições para o seu
desenvolvimento integral, tentando desenvolver suas potencialidades
ao máximo para que possa atingir seu nível de excelência pessoal e
estar preparado para um papel atuante na sociedade (Santos, 2000).
A este
propósito Ferreira e Hood (1990) argumentam que as instituições de
ensino superior não se preocupam com o desenvolvimento integral e
harmonioso da personalidade do aluno e salientam, concordando com
vários autores, a importância de se promover intervenções que visem
o desenvolvimento total do estudante universitário ( Gonçalves &
Cruz, 1988; Dias & Fontaine, 1996; Pascarella, 1985; Ferreira & Hood,
1999; Ferreira, & Soares, 2001; Santos & Almeida, 2002).
Sobremaneira, no sentido de maior responsabilidade com o
desenvolvimento global do aluno. Consequentemente, esta visão
provoca uma discussão acerca dos objetivos educacionais da
universidade para que se torne uma instituição de transformação do
conhecimneto e de desenvolvimento humano (Gonçalves & Cruz, 1988).
Para
tanto, precisamos olhar o estudante de forma diferenciada e
acolhedora, principalmente no momento do seu ingresso no curso
superior, por ser o primeiro ano de graduação um período crítico
para o seu desenvolvimento e o seu ajustamento acadêmico. Nesta
fase, o estudante experiencia vários desafios provenientes das
tarefas psicológicas normativas inerentes a transição da
adolescência para a vida adulta que quando confrontadas com as
exigências da vida universitária constitui-se um desafio a ser
vencido.
Sendo
assim, mostra-se evidente que o aluno universitário necessita de uma
atenção especial para que os desafios encontrados na adaptação ao
curso superior estimule a sua transição da adolescência para a vida
adulta e não gerem consequências negativas no nível do
aproveitamento acadêmico destes alunos. Em atenção especial a alunos
recém-chegados ao ensino superior, a universidade deveria
implementar programas de intervenção psicopedagógica que pudessem
facilitar a adaptação acadêmica e minimizar o impacto educacional da
universidade nestes estudantes. Estas estratégias podem envolver
várias atividades com o objetivo de desenvolvimento pessoal do
estudante, capacitando-o tanto para as suas aprendizagens acadêmicas
como para o desenvolvimento da sua personalidade (Santos, 2000;
Villar, 2003; Cunha, 2004).
Neste
enfoque é importante salientar as dificuldades de adaptação e de
rendimento acadêmico dos estudantes no ensino superior. É consenso
entre os especialistas que na transição do ensino médio para o
ensino superior o estudante vivencia várias mudanças que geram
diversos problemas de ajustamento acadêmico, resultado das
experiências concomitantemente entre às exigências colocadas pelo
contexto e às características desenvolvimentais dos próprios alunos
( Almeida, 1998a; Cochrane, 1991; Ferreira, Almeida & Soares, 2001;
Ferreira & Hood, 1990; Pascarella & Terenzini, 1991). Rickinson e
Rutherford (1995; citados por Santos, 2000) argumentam que estas
dificuldades influenciam negativamente no rendimento acadêmico,
aumentam os índices de evasão e de pedidos aos serviços de apoio
psicossocial.
A
maioria dos estudantes que ingressam no ensino superior traz consigo
uma expectativa positiva em relação a sua futura experiência
acadêmica. E, a discordância entre estes sentimentos e pensamentos e
o que a universidade efetivamente pode oferecer gera uma fonte de
difculdades refletida na adaptação, na satisfação e no sucesso
acadêmico (Berdie, 1966; Soares & Almeida, 2001).
O
interesse pelo tema sucesso acadêmico na universidade tem gerado
muitas pesquisas visando identificar quais fatores poderiam prever
este sucesso (Parker & col, 2004). Um processo de adaptação bem
sucedido, especialmente no 1º ano, aparece como preditor importante
da persistência e do sucesso dos alunos ao longo das suas
experiências acadêmicas, bem como determina padrões de
desenvolvimento estabelecidos pelos alunos ao longo de sua vida
universitária (Almeida, 1998b; Tinto,1996; citado por Santos, 2000).
O
primeiro ano da graduação ao curso superior é considerado um período
crítico, pois exige adaptação e integração ao novo ambiente. O modo
como é vivenciada esta experiência depende tanto do apoio da
universidade como das características individuais de cada um.
(Almeida, 1998a; Pires, Almeida & Ferreira, 2000; Almeida, Soares &
Ferreira, 1999; Cochrane, 1991; Pascarella, 1985; Ferreira, Almeida
& Soares, 2001). A associação destes fatores é de extrema relevância
para o ajustamento acadêmico, podendo tanto ajudar como prejudicar a
boa adaptação. Os principais problemas decorrentes deste processo
adaptativo estão relacionados às dificuldades e às exigências das
atividades acadêmicas, interpessoais e sociais, à identidade e ao
desenvolvimento vocacional dos jovens (Pires, Almeida & Ferreira,
2000).
As
pesquisas nesta área demonstram que mais da metade dos alunos que
ingressam no curso superior revelam dificuldades pessoais e
acadêmicas, havendo um aumento dos níveis de psicopatologia da
população universitária (Herr & Cramer, 1992; Leitão & Paixão, 1999;
Ratingan, 1989; Stone & Archer, 1990, citados por Almeida, Soares &
Ferreira, 1999; Santos, 2000; Parker & col, 2004).
Verifica-se pela literatura, que as dificuldades ao contexto
universitário são de diversas naturezas passando tanto pelas
questões individuais dos alunos como também pelas novas exigências
acadêmicas e o novo ambiente, influenciando o desempenho e o
desenvolvimento psicossocial dos estudantes.
Segundo
Almeida (1998a) as interações que ocorrem durante este período entre
os indivíduos e os contextos servem de referência para uma melhor
compreensão do ajustamento acadêmico e da realização acadêmica dos
estudantes do ensino superior. A qualidade da transição do ensino
médio para o ensino superior vai depender tanto do desenvolvimento
psicossocial do aluno, como também da instituição e dos mecanismos
de apoio colocados á disposição deles.
A noção
de sucesso acadêmico está estreitamente associada às experiências
dos estudantes no primeiro ano do curso, se afastando da perspectiva
centrada apenas na lógica do rendimento escolar. Ou seja, o sucesso
acadêmico do aluno deve ser avaliado pelo crescimento do estudante
em relação a si próprio e aos objetivos propostos, considerando o
desenvolvimento integral (Ferreira, Almeida & Soares, 2001).
Para que
o estudante ingressante no ensino superior alcance o sucesso
acadêmico é necessário que desenvolva as suas competências
intelectuais, acadêmicas e pessoais, tais como: o estabelecimento e
a manutenção de relações interpessoais, o sentido de identidade e o
processo de tomada de decisão acerca da carreira (Upcraft & Gardner,
1989). Neste sentido, a universidade emerge como um contexto
facilitador do desenvolvimento pessoal dos jovens, promovendo a
integração e o ajustamento acadêmico, pessoal, social e afetivo do
aluno (Ferreira, Almeida & Soares, 2001).
É neste
enfoque que o presente trabalho pretende contribuir para o estudo de
como as vivências dos alunos ingressantes no ensino superior podem
afetar a adaptação e o sucesso acadêmico.Tendo como objetivo
analisar em que medida as três dimensões das vivências acadêmicas
dos alunos (pessoal, de realização e contextual), avaliadas através
da administração do Questionário de Vivências Acadêmicas – QVA
(Almeida e Ferreira, 1997), se apresentam relacionadas ao rendimento
acadêmico dos alunos do primeiro ano.
MÉTODO
Sujeitos
Participaram do estudo 100 alunos do primeiro ano do curso de
engenharia militar do Instituto Militar de Engenharia, sendo 12 do
sexo feminino e 88 do sexo masculino. As idades variaram entre o
mínimo de 16 anos (2 alunos) e máximo de 24 anos (1 aluno), tendo
86% dos sujeitos idades entre 17 e 20 anos.
Instrumento
Para
avaliar as vivências acadêmicas utilizou-se o Questionário de
Vivências Acadêmicas (QVA) de Almeida e Ferreira (1997) numa versão
adaptada por Villar e Santos (2001; citado por Villar, 2003) para o
contexto universitário de acadêmicos brasileiros. Este questionário
é um instrumento de auto-relato composto de 170 itens, em formato
Likert de cinco alternativas, distribuídos por 17 subescalas,
algumas pontuando em mais do que uma subescala. Estas subescalas são
agrupadas de modo a formar três dimensões: pessoal, da realização
acadêmica e contextual. Na Tabela I encontram-se as subescalas
agrupadas de acordo com cada dimensão.
Para
avaliar o rendimento escolar dos alunos, foi realizada primeiramente
uma pesquisa junto aos professores que ministram aulas no 1º
semestre do 1º ano do curso para identificarem dentre todas as
disciplinas que compõem a grade curricular deste semestre, três
disciplinas que são essenciais à formação do engenheiro. Os
resultados desta pesquisa permitiram identificar as três disciplinas
mais importantes desta etapa do curso, a saber: Física I, Cálculo I
e Álgebra Linear I. Em seguida, foi calculado as médias das
classificações finais dos alunos nas três disciplinas referidas.

Procedimento
A
aplicação do QVA foi realizada no final do mês de maio do mesmo ano
letivo em que foi considerado o rendimento acadêmico dos alunos. A
aplicação do QVA foi coletiva e administrada a todos os alunos da
amostra numa única sessão, tendo um tempo médio de resposta ao
questionário em torno de 30 minutos. Foram apresentadas aos alunos
os objetivos do estudo e o interesse na aplicação do instrumento da
pesquisa, assim como foram prestados outros esclarecimentos, como a
confiabilidade das respostas dadas. O levantamento das respostas do
QVA foi realizado conforme recomendações dos autores. Para as
análises dos dados recorreu-se ao software SPSS, onde procedeu-se a
correlação de Pearson.
O
processo de adaptação ao ensino superior e o rendimento acadêmico II
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