Métodos de estudo em alunos do 1º ano da universidade II
RESULTADOS
Na
Tabela I apresentamos os valores nas cinco subescalas do IACHE,
assim como nas notas de candidatura, tomando os estudantes da
amostra global e esta subdividida segundo o género.

Analisando o conjunto de valores obtidos, verificamos a existência
de médias mais elevadas por parte dos alunos de sexo feminino nas
várias sub-escalas, como aliás na média de acesso à universidade. Na
generalidade das sub-escalas de métodos de estudo, a diferença
favorável às estudantes mostra-se estatisticamente dimensões
significativa (Enfoque compreensivo: t(274)=-1,99; p=0,05;
Enfoque reprodutivo: t(274)=-3,02; p=0,05 e Organização do
estudo: t(274)=-4,94; p=0,05). Um índice quase significativo ocorre
na sub-escala “Envolvimento estudo” (t(274)=-1,93; p=0,05),
sendo maior a proximidade dos dois géneros na sub-escala
“Percepções pessoais de competência” (t(274)=-0,61; p=0,54).
Mesmo nestas duas sub-escalas, os estudantes do sexo feminino
apresentam valores mais elevados. Esta diferença a favor das
estudantes generaliza-se à média de candidatura à universidade
(t(274)=-2,54; p=0,01).
Na
Tabela II descrevemos os coeficientes de correlação entre os
resultados nas cinco sub-escalas do IACHE e as notas de candidatura
dos alunos ao Ensino Superior, para a amostra geral e tomando os
estudantes segundo o género.
Verificam-se que os estudantes do sexo feminino apresentam níveis de
correlação mais elevados entre as diversas sub-escalas de métodos de
estudo e a nota de candidatura à universidade, tornando neste
subgrupo de alunos a sua classificação de acesso mais determinada
pelos métodos utilizados no estudo. As percepções pessoais de
competência são as que mais se destacam nesta correlação (r=0,50),
seguidas do enfoque compreensivo e do envolvimento no estudo.
A excepção ocorre na sub-escala enfoque reprodutivo sem
correlação com a nota de candidatura (r = - 0,02).
Relativamente aos estudantes do sexo masculino, estes apresentam
níveis correlacionais mais baixos. No entanto as percepções pessoais
de competência a subescala mais correlacionada com a nota de
candidatura (r = 0,34), tal como se verifica no sexo feminino.
Traduzindo a nota de candidatura uma estimativa da competência
académica dos alunos, nela convergindo os conhecimentos, a
habilidade cognitiva, a motivação e a origem sócio-cultural,
compreende-se a sua forte associação a abordagens mais profundas ou
compreensivas à aprendizagem e às percepções dos alunos em torno das
suas próprias competências e desempenhos.
Tomando
estes coeficientes de correlação segundo o género dos alunos,
constatamos um mesmo padrão de valores em três das sub-escalas (percepções
pessoais, enfoque compreensivo e organização no estudo).Tomando
em consideração o género, os factores de correlação obtidos
apresentam diferentes graus de importância. Verificase que em ambos
os sexos as percepções pessoais de competência representam a
sub-escala que mais se correlaciona com a nota de candidatura,
seguida do enfoque compreensivo. O envolvimento no estudo
surge como o 3º factor mais relacionado com a nota no caso das
raparigas, ao passo que nos rapazes este lugar corresponde ao
enfoque reprodutivo. A organização no estudo representa o 4º
factor mais correlacionado em ambos os sexos. A sub-escala que
expressa menos relação com a nota de candidatura é, no caso do sexo
feminino o enfoque reprodutivo, enquanto que no sexo feminino
se trata do envolvimento no estudo.
Assiste-se
à ausência de correlação entre a nota de candidatura e o enfoque
reprodutivo (memorístico), muito embora no subgrupo dos rapazes tal
coeficiente, ainda que baixo (r = 0,17), está no limite
estatisticamente significativo. Existe portanto uma ligação no
sentido inverso entre classificações mais elevadas no acesso e menor
recurso ao enfoque superficial ou reprodutivo por parte dos alunos.
Na sub-escala organização do estudo (tempo, materiais…) assistimos a
uma ausência de correlação com a nota de candidatura nos estudantes
do sexo masculino, aparecendo uma maior associação entre as duas
variáveis junto das estudantes (p=0,08, ou quase estatisticamente
significativo).
DISCUSSÃO
As
diferenças individuais entre os alunos que hoje acedem ao ensino
superior são evidentes. O acesso da Universidade a grupos sociais
mais alargados acarreta, obviamente, uma maior heterogeneidade nos
estudantes universitários em termos de capacidades, conhecimentos,
motivações e métodos de estudo (Almeida, 2002a). Importa, por isso,
compreender tais diferenças e implementar formas de actuação ao
nível do ensino e da avaliação que melhor sirvam os objectivos da
formação e do desenvolvimento dos jovens universitários.
Aceitando-se que a aprendizagem é mais influenciada por aquilo que o
estudante faz do que por aquilo que faz o professor (Biggs, 2000),
então particular relevância assumem os métodos de estudo na
explicação do sucesso académico no ensino superior.
Os
métodos de estudo diferenciam-se segundo o género dos alunos. Assim,
observaram-se diferenças significativas entre os dois sexos no
enfoque compreensivo, enfoque reprodutivo e organização do estudo,
e nesta última sub-escala de forma mais acentuada, sendo que o
género feminino apresenta pontuações mais elevadas em todas estas
sub-escalas. Assim, podemos depreender que as alunas se destacam dos
colegas do sexo masculino sobretudo na capacidade de gestão do
tempo, organização de materiais, elaboração de resumos, leituras
complementares às aulas e memorização de conteúdos. Decorre daqui
que, se por um lado as estudantes demonstram um envolvimento mais
profundo, procurando estabelecer relações sobre os diversos
conteúdos e abstrair deles significações relevantes em termos
pessoais, por outro lado parecem também investir mais em tarefas de
memorização e de organização do seu estudo face aos colegas do sexo
masculino. Isto significa que as alunas parecem empenhar-se mais no
estudo ao nível da abstracção e interpretação da informação, assim
como na dedicação de tempo e recursos pessoais à organização da
informação e memorização dos conteúdos quando necessário. Uma
eventual contradição entre estes dois padrões de conduta é mais
aparente que real, pois abordagens compreensivas e memorísticas são
igualmente adequadas consoante a natureza das matérias e tarefas
curriculares. Apesar do recurso a estratégias ditas de uma abordagem
superficial, as estudantes vão além destas, explorando activamente
significados, procurando assegurar a compreensão dos conteúdos e
desenvolvendo uma motivação intrínseca pelas actividades de estudo.
Os
resultados obtidos neste estudo confirmam, ainda, as diferenças
individuais dos alunos nos seus métodos de estudo de acordo com o
seu rendimento académico. Com efeito, os alunos com melhores
classificações no ensino secundário chegam à Universidade com
hábitos de estudo que os aproximam mais de um enfoque profundo ou
compreensivo na aprendizagem (versus um enfoque de tipo reprodutivo
ou memorístico). Os alunos com piores classificações no ensino
secundário apresentam resultados mais baixos nos itens de enfoque
compreensivo (Biggs, 2000; Entwistle & Ramsden, 1983; Gibbs &
Lucas, 1996). Para além disto, os alunos com melhores classificações
diferem dos colegas com resultados escolares mais baixos nas suas
percepções de competência. Os primeiros percepcionam-se como mais
capazes ou acreditam mais nas suas capacidades para enfrentar os
desafios da aprendizagem e do sucesso académico no Ensino Superior.
Finalmente, embora de uma forma não tão contrastada, os estudantes
com melhores classificações no Ensino Secundário chegam à
Universidade com índices superiores de motivação para, de uma forma
intrínseca, se envolverem nas actividades curriculares (Almeida,
2002a; Santos & Almeida, 1999). Assim sendo, os alunos que ingressam
no 1º ano com melhores classificações de acesso parecem estar, pelas
formas de estudar e pelas percepções pessoais de competência que
apresentam, melhor preparados para enfrentar os desafios de novas
formas de ensinar, de aprender e de avaliar que caracteriza o Ensino
Superior.
Estas
ilações, tomando as intercorrelações entre as classificações do
ensino secundário e os métodos de estudo dos estudantes no acesso à
Universidade, são particularmente evidentes junto dos alunos do sexo
feminino. Com efeito, índices mais elevados de correlação foram
observados entre nota de candidatura e métodos de estudo nos
estudantes do sexo feminino. Assim, dir-se-ia que, não só as alunas
apresentam médias mais elevadas nas sub-escalas de métodos de estudo
e na média de candidatura, como parece haver uma maior associação
neste subgrupo de alunos entre métodos de estudo e rendimento
académico. Nesta linha, podemos pensar que o rendimento académico
aparece menos associado aos métodos de estudo junto dos alunos do
sexo masculino. Inclusive, no caso das estudantes, observa- se uma
correlação com significado estatístico entre os comportamentos de
organização do estudo (gestão diária do tempo, materiais,
apontamentos, etc.) e o rendimento académico, sendo certo que se
poderia pensar que esta dimensão mais comportamental do estudo
poderia ser menos relevante para o rendimento académico à medida que
avançamos na escolarização dos estudantes, em face do maior peso de
variáveis ditas cognitivo-motivacionais.
Finalmente, pensando em cursos que requerem dos estudantes maior
volume de trabalho, atitudes mais activas de compreensão das
matérias ou abordagens mais analíticas, podemos reconhecer que os
alunos se apresentam na sua transição para o ensino superior
bastante diferenciados em termos de competências e de motivação para
o sucesso académico. Tomando a taxonomia de Biggs (1987, 1990,
1993), uma abordagem mais profunda à aprendizagem, na sua componente
cognitiva e motivacional, ocorre preferencialmente junto dos alunos
que acedem à Universidade com melhores classificações do Ensino
Secundário. Provavelmente, estamos face a uma das razões porque a
média de candidatura dos estudantes ao Ensino Superior se assume
como a variável que mais ou melhor prediz o rendimento académico dos
estudantes universitários no final do 1º ano (Santos & Almeida,
1999; Jesus, 2002; Soares, 2000; Soares & Almeida, 2004; Miranda &
Marques, 1996).
Em
cursos com maior percentagem de estudantes do sexo masculino, ou
ainda de estudantes com médias mais baixas de acesso (por vezes
também frequentando um curso que não corresponde a uma primeira
escolha vocacional), como aliás ocorre em algumas áreas de
Engenharia, importa atender às atitudes e hábitos de estudo dos
estudantes. Tal como tem vindo a ser sugerido por diversos autores (Chaleta
& Grácio, 1998; Jesus, 2002; Taveira, 2000; Rosário, 1997), a
realidade sugere que vários alunos necessitam de algum apoio tendo
em vista a aquisição e a sua auto-capacitação ao nível das
competências de estudo. Uma dessas competências passa pela
capacidade de auto-regulação dos alunos na sua aprendizagem
(Almeida, 2002b; Rosário, 1997). A Universidade e os professores
podem desenvolver tais competências através de uma mudança nas suas
práticas de ensino e de avaliação (Martins, 2004). Ao mesmo tempo,
serviços de apoio psico-educativo no seio da universidade podem
responder por necessidades específicas por parte de alunos mais
“fragilizados” nos seus recursos cognitivos e motivacionais. Apesar
de adultos, alguns estudantes chegam ao Ensino Superior com fracas
competências de organização e planeamento das actividades escolares,
ou ainda com índices reduzidos de motivação. Cada vez mais e face à
heterogeneidade de estudantes no acesso, são necessárias medidas
institucionais que alterem uma certa cultura de desresponsabilização
instalada (Martins, 2004). Numa lógica remediativa e promotora da
adaptação e sucesso académico dos estudantes ao longo da sua
frequência do Ensino Superior, as instituições universitárias têm
que assumir uma parte da responsabilidade pelas taxas elevadas de
insucesso e de abandono dos estudantes do 1º ano.
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1 Professora Associada da Universidade do Minho,
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2 Professor Catedrático da Universidade do Minho,
Portugal e Presidente do Instituto de Educação e Psicologia.
3 Colaboradora do Conselho de Cursos de Engenharia da
Universidade do Minho, Portugal
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