Métodos de estudo em alunos
do 1º ano da universidade
Study
methods of freshment students
Rosa
Maria Vasconcelos1;
Leandro da Silva Almeida2;
Silvia Correia Monteiro3
Universidade do Minho - Portugal
RESUMO
O artigo
analisa os métodos de estudo de uma amostra de alunos do 1º ano de
uma Universidade de Portugal, no momento de ingresso na Universidade,
maioritariamente de cursos de Engenharia. Utilizou-se o Inventário
de Atitudes e Comportamentos Habituais de Estudo – IACHE, que
contempla cinco sub-escalas: enfoque compreensivo; enfoque
reprodutivo; percepções pessoais de competência; envolvimento no
estudo; e organização das actividades de estudo. A análise considera
a nota de candidatura ao ensino superior e o género. Os resultados
mostram que alunos com melhores classificações ao nível do ensino
secundário apresentam pontuações mais altas nos itens reportados a
um enfoque mais compreensivo que memorístico no estudo, assim como
nos itens que traduzem percepções pessoais mais positivas de
competência e de realização académica. Os alunos do sexo feminino
apresentam, ainda, resultados mais elevados nas várias sub-escalas,
inferindo-se níveis superiores de profundidade compreensiva e de
envolvimento no estudo, assim como melhor organização das
actividades escolares.
Palavras-chave: Ensino Superior, Rendimento académico, Hábitos
de estudo
ABSTRACT
This
article analises the study methods of a freshmen group of Minho
University at the moment they access higher education. Most of these
students are from engineering courses. The IACHE inventory of
attitudes and study habits was used. This inventory consists of five
sub-scales: comprehensive approach; reproductive approach; personal
perceptions of competencies; study envolvement; organization of the
study activities. This research takes the entrance grade and the
gender of the students into account. The results confirm the
expectations, as students with higher grades at high school show
higher levels in items regarding the comprehensive approach on the
reproductive approach. These students have also higher levels on the
personal positive perceptions scales on competency and academic
achievement. Higher results on several sub-scales were verified for
the female students, showing higher scores on the comprehensive
approach and study involvement, as well better organisation of
academic activities.
Keywords: Hiher Education, Academis achievement, Study-habits.
INTRODUÇÃO
A
transição do ensino secundário para o ensino superior é marcada por
diversas exigências, nomeadamente a nível pessoal, social e
académico. Debruçando-nos mais particularmente sobre esta última
variável, a confrontação com a existência de novos métodos de ensino
e de avaliação, a aquisição de novas rotinas e hábitos de estudo ou
a maior autonomia na gestão do tempo, constituem novos contextos de
vida e de desafios com que o jovem se confronta ao entrar na
universidade (Almeida, 2002a; Almeida & Soares, 2004; Ferreira &
Hood, 1990). Além disto, os problemas vocacionais relacionados com o
curso e com a carreira também se podem fazer sentir. Em Portugal,
por exemplo, cerca de um terço dos estudantes refere não ingressar
num curso de primeira escolha em virtude da sua média do ensino
secundário não ser suficiente para entrar num curso de primeira
opção (em Portugal existe um sistema de numerus clausus no acesso
aos vários cursos do ensino superior). Tudo isto se pode transformar
em níveis consideráveis de ansiedade, de desmotivação e de baixo
investimento no curso, o que consequentemente se repercute na sua
adaptação académica e no aproveitamento escolar (Almeida, 2002a;
Almeida & Soares, 2004; Santos, 2001; Santos & Almeida, 1999).
No caso
particular dos estudantes dos cursos de Engenharia, estes constituem
o grupo de alunos cujas opções de entrada mais se afastam da
primeira escolha (cerca de 40% destes alunos não ingressaram na sua
1ª opção), podendo apresentar, em consequência, maiores problemas de
adaptação e de empenhamento académico. Estes mesmos alunos parecem
também menos preparados para os métodos dedutivos de ensino
privilegiados pelos professores de matemática e física na abordagem
de conteúdos relativamente abstractos (Martins, 2004; Tavares,
Santiago & Lencastre,1998). Estes factos podem, segundo estes mesmos
autores, ajudar a compreender a maior incidência de insucesso
escolar nos estudantes dos cursos de Engenharia, em particular
nestas duas disciplinas curriculares.
A
investigação realizada nesta área tem revelado que algumas das
dificuldades de adaptação à Universidade decorrem da ineficácia dos
métodos de trabalho dos estudantes. Consequentemente, a par dos
problemas no ajustamento pessoal e social, emergem dificuldades de
aprendizagem e de rendimento académico, em boa medida explicadas por
processos de aprendizagem e métodos de estudo pouco eficazes
(Almeida, 2002b; Rosário, 1997; Biggs, 2000; Watkins, 1983). O
ensino superior, apelando a uma maior participação, iniciativa e
autonomia dos estudantes nas suas aprendizagens, pode ser demasiado
desafiante para as competências e os níveis de autonomia dos alunos.
A auto-regulação da aprendizagem revela-se, deste modo, um factor
decisivo do desempenho académico dos estudantes no ensino superior
(Duarte, 2000; Lindner & Harris, 1993; Pintrich, Smith, Farcia &
Mckeachie, 1995; Rosário, 1997; Santos, 2001). Pintrich (1995)
acrescenta que, quando os alunos tomam consciência dos seus
comportamentos de estudo e dos seus níveis motivacionais e
cognitivos, conseguem aumentar os seus níveis de auto-regulação na
aprendizagem. Comportamentos auto-regulados, reflectindo maior
metacognição, controlo e monitorização do estudo e da realização em
situações de avaliação, acabam por se associar positivamente, e de
forma significativa, ao rendimento académico (Almeida, 2002a,b).
A teoria
das abordagens à aprendizagem (Biggs, 1985) aparece
frequentemente mencionada para descrever as formas habituais de
estudo e o rendimento dos estudantes na Universidade. O conceito de
abordagem faz referência ao conceito de meta-aprendizagem e à
combinação de motivos e estratégias na aprendizagem (Biggs, 1985;
Biggs & Telfer, 1987; Jesus, 2002). Biggs (1985, 1987) sugere três
tipos de abordagem mais frequentes: abordagem superficial – a
motivação é extrínseca e a estratégia orienta-se para a simples
acumulação, memorização e reprodução de conhecimentos, sem
preocupação com a compreensão dos conceitos; abordagem profunda
– a motivação é intrínseca e a estratégia orienta-se para a busca e
atribuição de um significado pessoal para os conteúdos aprendidos; e
abordagem de alto rendimento – a motivação baseia-se na
competição e na auto-valorização, independentemente dos conteúdos a
aprender terem ou não significado pessoal, e a estratégia envolve a
organização do tempo e dos materiais de estudo de forma a maximizar
o sucesso e as classificações. Estas abordagens tendem a ser
assumidas como mutuamente exclusivas (Entwistle & Ramsden, 1983),
tendo um impacto bastante diferenciado em termos do sucesso
académico dos estudantes (Almeida, 2002a; Gibbs & Lucas, 1996;
Rosário, 1997).
Também
Vermunt (1996) procura conciliar, na descrição da aprendizagem e
rendimento dos estudantes universitários, componentes de natureza
cognitiva e motivacional. Com efeito, os modelos mais compreensivos
da realização académica dos estudantes conciliam ambas as variáveis
(Bessa & Tavares, 2000), sendo certo que a ponderação das
estratégias passa pela avaliação que os alunos fazem dos contextos
de ensino e dos métodos de avaliação dos professores, assim como do
tipo de disciplinas e tarefas de aprendizagem (Almeida & Soares,
2004; Tavares, Almeida, Vasconcelos & Bessa, 2004). Os contextos
académicos parecem determinantes dos métodos de estudo dos alunos.
Chaleta e Grácio (1998) alertam para a necessidade destes contextos
estimularem o aprender a aprender, promovendo a aprendizagem
metacognitiva, a autoorganização e a auto-regulação por parte dos
alunos, ou seja, a mobilização pelos estudantes de estratégias para
fazerem face às tarefas académicas de índole curricular.
A
investigação na área sugere uma diferença a favor do género feminino
nas abordagens mais profundas e significativas ao estudo. As alunas,
também em Portugal, apresentam maior envolvimento, organização e uso
de estratégias cognitivas e metacognitivas na sua aprendizagem
(Machado & Almeida, 2000; Bessa & Tavares, 2000; Tavares e col.,
1998). A presente investigação pretende descrever os métodos de
estudo dos alunos no momento de entrada na universidade, ponderando
a nota de candidatura dos alunos ao Ensino Superior e o género de
pertença.
MÉTODO
Participantes
A
amostra utilizada é constituída por 275 alunos do 1º ano das
Licenciaturas em Engenharia, Arquitectura, Geografia e Planeamento,
Informática de Gestão e Matemática Aplicada da Universidade do Minho,
do ano lectivo de 2004/5. Este conjunto de cursos é ministrado em um
dos Campus da Universidade, sendo a larga maioria dos alunos
provenientes de cursos de Engenharia (89%) e do sexo masculino
(n=184, ou seja, 68,7%), situando-se a média das idades dos alunos
em 18,3 (DP=1,25). Trata-se de uma amostra por conveniência, tomando
os estudantes do 1º ano que participavam nas actividades de
acolhimento organizadas institucionalmente.
Instrumento
Inventário de Atitudes e Comportamentos Habituais de Estudo – IACHE
(Tavares, Almeida, Vasconcelos & Bessa, 2004). Trata-se de um
questionário multidimensional dos métodos de estudo constituído por
44 itens. Abarca dimensões cognitivas, motivacionais e
comportamentais, sendo formado por cinco sub-escalas: enfoque
compreensivo (10 itens; ex.: “Quando sobre um dado assunto há várias
perspectivas, procuro estabelecer as diferenças e semelhanças entre
elas”); enfoque reprodutivo (8 itens; ex.: “Memorizo definições e
aspectos das matérias com algum pormenor”); percepções pessoais de
competência (8 itens; ex.: “Só consigo entender determinadas
matérias se tiver alguém a explicar-me individualmente”);
envolvimento no estudo (8 itens; ex.: “Estudo mais porque quero
realizar-me profissionalmente”); e organização das actividades de
estudo (10 itens; ex.: “Tenho um horário pessoal de estudo
devidamente organizado”). O formato da escala é tipo likert, de
cinco pontos, consoante o grau de acordo dos estudantes. A
construção e validação do inventário desenvolveu-se com incrementos
sucessivos de elementos até um total de 1061 questionários válidos.
Os resultados da análise factorial e da consistência interna dos
itens mostraram-se satisfatórios, com alfas de Cronbach a variar
entre 0,80 e 0,86 (Tavares, Almeida, Vasconcelos & Bessa, 2004).
PROCEDIMENTO
O
questionário IACHE foi aplicado aos alunos durante a semana de
acolhimento da Universidade. Foi garantida aos estudantes a
confidencialidade dos seus resultados e a liberdade de decisão em
participar na investigação.
Métodos de estudo em alunos do 1º ano da universidade II
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