Mônica Gardelli Franco (PUC-SP)
PUCSP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
mmgfranco@uol.com.br
RESUMO
A Inclusão Digital é um tema bastante recorrente da nossa
atualidade. As necessidades oriundas das atuais exigências
sociais, determinadas pelo avanço tecnológico, evidenciam
diferentes perfis de excluídos digitais. Na cultura atual, entre
outras formas de exclusão, deparamo-nos com excluídos digitais
alfabetizados e não alfabetizados. A problemática deste trabalho
parte desta condição de excluídos digitais - os não
alfabetizados. O foco das reflexões deste trabalho centra-se nas
contribuições das tecnologias da comunicação e informação
observadas em um curso de alfabetização de adultos sob uma
perspectiva freireana, realizado em 2002. Este estudo permite
refletir sobre uma proposta de alfabetização digital que cria
espaços para uma inclusão crítico-social.
1. Introdução
Nas ruas, nos meios de transporte, nos bancos, nos
supermercados, nas repartições públicas, nos domicílios, nos
mais diversos ambientes de trabalho das regiões metropolitanas
de nosso país, encontramo-nos frente a frente com bilhetes,
tarjas, cartões magnéticos; catracas, urnas, caixas eletrônicos;
aparelhos, máquinas, computadores. Situações rotineiras para
alguns produzem sentimentos de ansiedade e impotência para
outros. Conhecer características da linguagem digital pode ser
decisivo para participar ativamente da sociedade globalizada. Se
na sociedade pós-invenção da escrita, saber ler e expressar
idéias por meio do código escrito passaram a ser “distintivos de
poder”, na sociedade digital, outros verbos se juntam ao saber
ler e escrever: teclar, clicar, programar, navegar... Interagir
com as inovações tecnológicas está saindo, cada vez mais
aceleradamente, do campo da opção para o da necessidade. A
Inclusão Digital é um tema bastante recorrente da nossa
atualidade. As necessidades oriundas das atuais exigências
sociais, determinadas pelo avanço tecnológico, evidenciam
diferentes perfis de excluídos digitais. Na cultura atual, entre
outras formas de exclusão, deparamo-nos com excluídos digitais
alfabetizados e não alfabetizados. A problemática deste trabalho
parte desta condição de excluídos digitais- os não
alfabetizados.
Como se sente uma pessoa não alfabetizada diante de uma
simples catraca eletrônica? Das máquinas que vendem passes,
refrigerantes? De um caixa rápido? De uma urna eletrônica? Que
leitura faz, no sentido amplo e restrito da palavra, diante de
um computador presente em seu espaço de trabalho? Essas questões
direcionam a uma outra série de questões de âmbito educacional:
como incluir digitalmente adultos que sequer tiverem acesso à
escolarização formal, de modo que, simultaneamente à sua
alfabetização, adquiram as habilidades necessárias para atuarem
no mundo da tecnologia? Qual inclusão seria esta? A partir
destes questionamentos, pesquisadores da PUC-SP, em parceria com
um grupo de professores alfabetizadores de adultos de uma escola
da zona leste de São Paulo, se propuseram a desenvolver um
trabalho de alfabetização digital. O foco desta proposta centrou-se
nas concepções de Paulo Freire sobre alfabetização, que entende
que a leitura da palavra deve compreender a leitura crítica do
mundo.
2. A globalização da inclusão ou exclusão?
A globalização, fenômeno representativo do movimento das
relações que estão sendo estabelecidas na atualidade,
caracteriza-se por produzir tanto benefícios como malefícios e
envolve indiscriminadamente todos. Segundo o dicionário Houaiss
(2001), a globalização “se caracteriza pelo intercâmbio
econômico e cultural entre diversos países, devido à
informatização, ao desenvolvimento dos meios de comunicação e
transporte”, ou seja, amplia os espaços de interação e de
interlocução do homem redimensionando sua vida em sociedade. Tal
característica vislumbra o aspecto positivo da globalização. Seu
aspecto mais perverso ocorre quando somos cooptados pelo mercado
que preza o consumismo capitalista, as vantagens para o
poderoso, as limitações aos menos informados e a subjugação da
cultura dominada.
Neste contexto, as tecnologias da informação e comunicação
surgem como instrumentos possibilitadores da globalização. Desta
forma, pode-se afirmar que o seu papel é de instrumento
mediatizador tanto sob seu ponto de vista benéfico quanto
maléfico, ou seja, o positivo e o perverso, e sua utilização
está necessariamente vinculada aos interesses daqueles que
veiculam informações por meio delas. Esta aceleração da
comunicação dos conhecimentos produzidos transforma os
conhecimentos técnicos e científicos nas principais fontes de
produtividade, gerando assim um grau de exclusão social,
econômica e intelectual cada vez mais acentuado, por excluir
aqueles que não conseguem acompanhar o ritmo, mantendo-os
marginalizados deste processo.
É possível observarmos, também, que a aceleração dos
processos que permite a democratização do saber acaba por
disseminar mais rapidamente os valores culturais e de mercado
impostos pelas culturas hegemônicas, dificultando uma reflexão
crítica tanto sobre o uso do recurso tecnológico, quanto ao
conhecimento veiculado por meio dele, o que torna o seu usuário
um mero reprodutor do sistema no qual está inserido. A exclusão
imposta pela política econômica neo-liberal é muito mais
profunda do que a experiência de impotência por não saber
interagir com uma máquina. Há a necessidade urgente e
imprescindível de democratizar o acesso à informação como
condição necessária ao desenvolvimento de um Estado democrático
(Moraes, 1999).
3. Por que inclusão digital de adultos não alfabetizados?
Pode-se pensar que o público que freqüenta os cursos de EJA (Educação
de Jovens e Adultos) não se depara com o desafio do computador
em seu ambiente de trabalho. No entanto, tal demanda se aproxima
cada vez mais também desse público, à medida que há necessidade
de operar equipamentos que exigem uma certa familiaridade com a
tecnologia (como em ambientes domésticos, portarias dos prédios,
pequenos estabelecimentos e empresas). Alguns relatam que, na
hora de operar algum aparelho eletrônico, máquina ou
propriamente um computador, têm que chamar outra pessoa para que
não haja enganos. Outros relatam que aprenderam a operar
equipamentos complexos decorando a seqüência de teclas, apoiados
em símbolos. Por fim, há os que delegam tudo o que se relacionar
a eletro-eletrônicos para os outros. Dados de pesquisa do IBGE e
outras organizações que apontam uma realidade de analfabetismo
de jovens e adultos brasileiros, preocupante. O Instituto Paulo
Montenegro realizou uma pesquisa com dois mil brasileiros com
idades entre 15 e 64 anos, cujos dados apontam que 9% encontram-se
na condição de analfabetos (Almeida, 2003).
As pesquisas também revelam uma realidade a ser superada: o
analfabetismo funcional. Cerca de 65% deste contingente
pesquisado encontram-se na categoria de analfabetos funcionais.
Esses, embora tenham adquirido o domínio dos códigos da escrita,
não desenvolveram competência para utilizar este domínio em
práticas socioculturais diárias, como preencher formulários,
buscar informações, ler jornais ou telas de cinema. Para o IBGE,
analfabeto funcional “é toda pessoa cuja escolaridade não
atingiu quatro anos de estudo” e toda pessoa que superou esse
nível de escolaridade é considerada alfabetizada funcional e
apta “para enfrentar as demandas advindas do contexto
sociocultural” (Almeida, 2003).
Com relação à tecnologia, estima-se que cerca de 10% dos
brasileiros têm acesso a um computador e 6%, à internet. Desse
total, 80% pertencem às classes A e B, e sua localização
geográfica concentra-se nas regiões metropolitanas. Segundo
pesquisa do Ibope de maio de 2001, nas regiões metropolitanas do
Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte,
Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife e Fortaleza, 20% da
população está conectada à rede mundial de computadores. Em
termos internacionais, a representação é pequena, mas representa
o dobro, se comparada à média nacional. Dos mais de 5 mil
municípios do país, só 300 contam com infraestrutura essencial
para instalação de serviços de acesso à rede, o que tende a
deixar de fora da revolução digital 94% das localidades do país
(Dieguez, 2001). Esses dados nos apontam as principais condições
que interferem no grau de exclusão ao acesso tecnológico: o
analfabetismo, a condição socioeconômica e a localização
geográfica. Sendo assim, a Inclusão ‘di-gi-tal’, tocar com a
ponta dos dedos o universo de informação e poder acessível a
partir da teleinformática, é uma realidade para uma pequena
parcela da população mundial e, em países como o Brasil, para um
público ainda mais seleto.
Na atualidade, vivemos um grande paradoxo. Por um lado, os
avanços tecnológicos permitiram a minimização dos custos na
produção de bens, facilidade e agilidade nos processos de
comunicação, diagnósticos mais precisos na área médica; por
outro, ampliaram o índice de exclusão crescente da participação
humana no processo de produção, inclusive nos chamados países de
Primeiro Mundo, onde também aumentam os índices de desemprego e
empobrecimento da população. As questões sociopolítico-econômico-científico-tecnológicas
não podem ser analisadas separadamente.
Neste contexto, as dificuldades daqueles que não dominam os
processos de leitura e escrita estão se multiplicando. As
funções, antes artesanais e braçais, estão sendo substituídas
por máquinas. A atividade intelectual é cada vez mais necessária
e a inclusão digital configura-se, cada vez mais, como uma
exigência ética diante das demandas do cotidiano e do mundo do
trabalho. A mudança que ocorre no trabalho do operador é ampla e
atinge seu conteúdo, sua estrutura e seqüência, pois é a máquina
que vai responder por uma execução tradicionalmente conhecida
como função dele. No entanto, novos desafios se apresentam para
as tarefas de preparação da máquina que passa a ser da
responsabilidade do operador, em termos de conhecimentos e
habilidades. (...) O operador tem adquirido um perfil amplo, ao
integrar à operação as funções de preparação, de controle de
qualidade e até de elaboração de programas mais simples,
exigindo-se dele maior responsabilidade e competência. (Machado,
1997:180,181)
Embora haja uma preocupação evidente com relação à defesa da
cidadania, a realidade ainda nos mostra que a maioria da
população encontra-se alienada das facilidades oferecidas pelas
novas conquistas da tecnologia. As iniciativas, os espaços
comunitários nas regiões metropolitanas do país que promovem o
acesso ao computador à população de baixa renda, como o caso dos
telecentros mantidos pelo poder municipal em São Paulo, ainda
mostram-se insuficientes para reverter o quadro. Os primeiros
passos da democratização da informática têm ocorrido, em maior
escala, nas escolas públicas; porém, os educandos de EJA
encontram-se excluídos desta oportunidade oferecida pelo sistema
público de ensino, pois muitos freqüentam cursos livres.
Com olhos para esta realidade, aponta-se a importância de
projetos de alfabetização de adultos que incorporem o uso das
TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) com o objetivo de
permitir que estes superem do grau de exclusão no qual se
encontram. Embora o uso do recurso tecnológico se configure em
um grande desafio para estes adultos, o acesso às TICs permite a
estas pessoas se integrarem ao movimento da atualidade e
desenvolverem competências para a utilização da leitura e
escrita para atuar no contexto no qual estão inseridas.
4. Inclusão Digital na perspectiva freireana
Paulo Freire sempre defendeu que “o educador há que viver como
um ser molhado de seu tempo” (1982). Embora não tenha deixado
numerosos escritos a respeito de sua visão sobre a utilização de
tecnologias na Educação, sua postura foi sempre a de um educador
aberto ao novo. Nos primórdios de seu trabalho, utilizava um
pequeno e pesado projetor de diapositivos (tecnologia da época)
nos círculos de cultura da cidade de Angicos. Na gestão como
secretário Municipal de Educação em São Paulo (1989-1991),
dentre tantas iniciativas voltadas à democratização do saber e
da gestão do espaço público, implantou o Projeto Gênese de
Informática Educativa, com o propósito de possibilitar às
classes menos favorecidas o direito da apropriação da
informática como instrumento de cultura, que deve estar a
serviço de sua libertação como indivíduo pertencente a classe
popular. Freire (1995) afirma que não se deve ser simplista e
responsabilizar o avanço tecnológico em si pelo caos vivido pela
sociedade contemporânea. Insiste na afirmação de que a questão é
política. Minha radicalidade me exige absoluta lealdade ao homem
e à mulher. Uma Economia incapaz de programar-se em função das
necessidades humanas, que convive indiferente com a fome de
milhões a quem tudo é negado, não merece meu respeito de gente.
E não me digam que as coisas são assim porque não podem ser
diferentes. Não podem ser de outra maneira porque, se o fossem,
feririam o interesse dos poderosos: este não pode ser o
determinante da prática econômica. Não posso tornar-me fatalista
para satisfazer o interesse dos poderosos. Nem inventar uma
explicação científica para encobrir uma mentira. (Freire,
1995:42)
Estamos diante de uma questão política e ética na qual a
reflexão sobre a tecnologia e seu progresso acelerado deve se
localizar a partir de um contexto mais abrangente do que o do
“progresso” e da manutenção de uma certa “ordem econômica”. Todo
o pensamento de Paulo Freire é marcado por sua preocupação com a
formação de uma consciência crítica dos educandos. A superação
da consciência ingênua para uma consciência crítica implicaria a
questão: A que e a quem serve o computador? A formação de uma
consciência crítica sobre a utilização do computador se
traduziria a partir do diálogo entre educadores e educandos
sobre a presença do computador no mundo contemporâneo e sobre a
apropriação de tal instrumento de cultura, a fim de o mesmo
possibilitar o desenvolvimento de um projeto político para uma
sociedade mais igualitária e democrática. Não parte da
necessidade de conhecimento sobre o funcionamento do computador.
Neste sentido, o computador é um instrumento que deve ser usado
para representar a realidade, codificá-la e, mediante a reflexão,
decodificá-la, isto é, analisála criticamente (Menezes, 1993).
Assim, o computador deve ser incorporado como instrumento
auxiliar na representação da realidade a ser refletida e
transformada. O computador deve ser um instrumento pedagógico
auxiliar para que o homem possa representar seus conhecimentos
criados com outros homens ou uma mediação para os seres humanos
realizarem a comunicação. A mediação possibilitada pelo uso do
computador de forma alguma substitui a relação de diálogo que só
é possível entre seres humanos (princípio freireano da
dialogicidade). Nesta perspectiva, o educando não dialoga com o
computador, com o qual o diálogo não é possível. Ainda que em
determinados momentos o uso do computador possa ser uma
atividade individualizada, uma atividade realizada em
consonância com os princípios freireanos, necessariamente se
configurará em uma utilização compartilhada no ambiente de
aprendizagem, a serviço da representação de conhecimentos
????c???A???? de pessoas que construíram conhecimento
coletivamente (Menezes, 1993). Deve ser visto, também, como um
instrumento para servir à humanização e não para uma
domestificação do homem, daí a necessidade de ser visto como um
dado de realidade que possui contradições de ordem econômica,
social, política. Da mesma forma, como um instrumento de
cultura, deverá estar sendo colocado à disposição do homem, não
como um elemento a mais de opressão. Sua desmistificação, no
sentido de apropriação, pelas classes menos favorecidas, também
faz parte de seu projeto político. Isto tanto é verdade, que
esta foi uma das motivações, quando Secretário de Educação do
Município de São Paulo, que o levou a implantar o Projeto Gênese
de Informática Educativa. (Menezes, 1993:97)
A Era da Informatização e da Informação apresenta questões
muito mais complexas do que aprender a lidar com os desafios
operacionais que se impõem no cotidiano. Segundo alguns
estudiosos, estamos diante de uma nova forma de pensar o mundo.
(...) é preciso formar os indivíduos para uma nova cidadania,
que possam ser capazes de participar efetivamente da vida social
e política, assumindo tarefas e responsabilidades. Mas um
cidadão ou cidadã que saiba se comunicar nos mais diferentes
níveis, dialogar num mundo interativo e interdependente,
impregnado dos instrumentos de sua cultura, utilizando-os para
sua emancipação, transformação, libertação e transcendência.
Acreditamos que caberá à educação desenvolver competências
fundamentais no sentido de capacitá-lo para assumir o comando da
própria vida, para uma participação mais direta, efetiva e
responsável na vida em sociedade. Educá-lo para que seja membro
de uma cultura moderna, capaz de integrar o sistema produtivo
fazendo uso dos insumos e produzindo em harmonia com o seu meio
natural e social. Educá-la para que seja um consumidor
consciente, capaz de tomar posse das informações produzidas no
mundo e que afetam sua vida como cidadã. (Moraes:1999,136)
Segundo Moraes (1999), os aspectos que devem ser priorizados
no desenvolvimento de programas e projetos envolvendo o uso das
novas tecnologias na educação são: o desenvolvimento humano; o
desenvolvimento sustentável; a aprendizagem e o conhecimento
visando a criação de uma nova ecologia cognitiva; a redução das
desigualdades sociais; uma educação baseada na prática
pedagógica reflexiva; a inovação e a criatividade, como cerne do
novo paradigma decorrente da visão quântica; a autonomia, a
cooperação e a criticidade; a possibilidade de incrementar
processos de educação continuada; a qualidade com eqüidade, o
incremento ao desenvolvimento científico e tecnológico e a
educação para uma cidadania global.
5. Uma experiência na alfabetização de jovens e adultos
Em 2002, estabeleceu-se uma parceria entre alguns pesquisadores
da PUC-SP e uma escola particular da Zona Leste de São Paulo,
que, desde 1997, mantinham o curso de Alfabetização de Jovens e
Adultos, gratuitamente para os menos favorecidos da região. O
objetivo desta parceria caracterizava-se pela implementação e o
desenvolvimento de um projeto denominado MOVA-DIGITAL. A
proposta deste projeto baseava-se na utilização do computador na
alfabetização de jovens e adultos. O início do trabalho ocorreu
em meados de maio com reuniões semanais entre os pesquisadores e
o corpo docente. O grupo era composto por cinco professoras,
dois auxiliares, duas coordenadoras, um auxiliar técnico e 150
alunos, distribuídos em cinco turmas. Os alunos, na sua maioria,
eram adultos imigrantes nordestinos. Alguns tinham iniciado o
processo de alfabetização na infância, outros não. A maioria era
do sexo feminino. Pedreiros, manicures, empregadas domésticas da
região. O grupo de alunos era dividido em quatro níveis de
aprendizagem. A mudança de um nível para outro dependia apenas
dos avanços que estes alunos apresentavam com relação aos
conteúdos trabalhados. Desta forma, não se tornava necessário o
cumprimento de um período predeterminado para “passar” de um
nível para outro. Para o desenvolvimento do projeto MOVA-DIGITAL,
a direção da escola disponibilizou o laboratório de informática
com 26 computadores com processador de texto e três impressoras.
Durante seis meses, os alunos freqüentaram o laboratório
semanalmente, e os encontros eram acompanhados pelos professores
da turma, pelo técnico do laboratório, por uma coordenadora e um
pesquisador. As atividades eram planejadas com o grupo e
discutidas com os alunos. Embora os princípios nos quais as
ações se fundamentavam fossem freireanos, observaram-se algumas
dificuldades relacionadas ao exercício desta “metodologia” pelos
educadores. Os alunos, por serem jovens e adultos, têm
internalizado um modelo de educação tradicional,
descontextualizado e fragmentado. Para eles, qualquer prática
que fuja deste modelo não se caracteriza como escolarização, e
acabam por exigir o modelo da “cartilha”. Caso o professor
insista em alguma outra didática, abandonam a escola por
entenderem que aquela metodologia não se trata de ensino. A sua
necessidade com relação ao domínio da escrita e da leitura é
bastante pragmática: ler a placa do ônibus, ler as embalagens
dos produtos de limpeza, ler anúncios de emprego, preencher
formulários... Outra exigência que acaba por comprometer a ação
das professoras se refere ao encaminhamento futuro dos estudos
destes alunos, que, ao terminar a quarta série, podem realizar
uma prova e ingressar no supletivo. A realização desta prova
exige conteúdo mínimo comum, sobre o qual as professoras acabam
se dedicando. Os trabalhos realizados no laboratório estavam
sempre associados aos temas ou projetos que eram desenvolvidos
na sala de aula, de acordo com o nível de cada grupo. As
atividades se concentraram na construção de pequenos textos.
Para o primeiro nível, o objetivo das atividades estava voltado
para a aquisição das letras, fonemas, sílabas e escritas de
palavras, frases ou pequenos textos significativos aos alunos.
As suas necessidades diárias, como fazer uma lista de
supermercado ou feira, escrever bilhetes, pequenas cartas,
recados, receitas, reconhecer os letreiros dos ônibus, cartões
de visita com seus dados pessoais, direcionavam a utilização da
ferramenta.
O segundo nível demonstrava grande interesse em se comunicar.
A partir desta necessidade, foram propostas várias atividades
que envolveram desde a escrita de bilhetes para os próprios
colegas da turma, até pequenas cartas para familiares que
moravam distantes, cartas de amor para filhos, cônjuges,
companheiros, pais. As histórias de vida preencheram o ambiente
do laboratório. O terceiro e o quarto nível demonstravam maior
interesse e preocupação com a elaboração de textos mais longos e
reflexivos. As atividades foram desenvolvidas próximas ao
período eleitoral e no auge das discussões sobre a ALCA. Temas
como “O Brasil que temos e o Brasil que queremos” eram geradores
de debates e discussões que orientavam as produções dos alunos.
Os produtos foram desde cartas direcionadas aos candidatos às
eleições presidenciais, até relatos de sonhos e desejos pessoais.
A apropriação dos recursos disponibilizados no editor de texto
valorizava suas idéias. Os alunos buscavam as cores, formatos e
tamanhos de letras diferentes para dar maior significado às suas
expressões.
Observou-se que, nos diversos níveis, o uso do computador
contribuiu para a familiarização com as letras tipográficas.
Essa prática estimulou os alunos a buscarem a leitura de jornal,
revista. Esses momentos, que inicialmente eram cercados de muita
expectativa, propiciaram uma nova maneira de compreender o
processo de aprendizagem desses alunos. Os alunos, que
primeiramente se manifestaram receosos com relação à máquina,
logo foram vencendo as barreiras da insegurança. Observou-se a
melhora da auto-estima destes, o que acabou resultando em
melhora no desempenho, mais segurança e autoconfiança. Por
realizarem as atividades em dupla, o relacionamento entre os
alunos foi ampliado e estabeleceu-se uma interação nas quais
todos ajudavam todos, inclusive nas atividades extra laboratório.
Aos poucos, o encantamento pela máquina foi sendo substituído
pelo seu domínio. Ao produzir textos que contavam sobre suas
histórias de vida, os nomes de seus familiares, sonhos e desejos
iam desmistificando a inacessibilidade a qual estavam submetidos.
A observação dos pesquisadores e professores sobre o avanço em
relação ao domínio da tecnologia por esses alunos se
complementava com relatos comoventes como o de uma aluna que
encontrou um teclado no lixo da empresa em que trabalhava, e o
levou para casa para ir treinando a localização das letras, ou
de outro, que, ao escrever (digitar) uma carta à sua família,
emocionou-se ao pensar a alegria que sentiriam ao ler uma
correspondência “escrita no computador”. Essa experiência
permitiu que o grupo elencasse algumas considerações a partir
das quais será possível encaminhar futuras ações que envolvam o
uso da tecnologia na alfabetização de adultos.
6. Considerações finais
A inserção do computador no processo de Educação de jovens e
adultos não deve ter por objetivo somente questões pragmáticas
sob o risco de uma educação tecnicista, uma prática esvaziada de
significado e obsoleta. O computador deve ser um instrumento
pedagógico a serviço do processo de construção de um
conhecimento autônomo e criativo. Segundo a concepção de
Educação proposta por Freire, o trabalho pedagógico há que ser
interdisciplinar não somente por uma questão de metodologia de
organização das atividades escolares, mas por uma questão de
convicção de que o homem compreende o mundo e constrói
conhecimento na relação com o outro, em busca de respostas a
questões significativas, e isso não se faz de forma fragmentada,
como aparece nas propostas curriculares tradicionais
compartimentalizadas em disciplinas. Sendo assim, as atividades
que se utilizam do computador na alfabetização de jovens e
adultos devem estar engajadas em projetos que tenham
significação individual e relevância sociopolítica e permear a
construção de conhecimento que se faz no espaço educativo.
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