ESTUDO PELA LEITURA TRABALHADA
1- A IMPORTÂNCIA DA LEITURA
Não basta ir às aulas para garantir
pleno êxito nos estudos. É preciso ler e, principalmente, ler bem.
Quem não sabe ler não saberá resumir, não saberá tomar apontamentos
e, finalmente, não saberá estudar. Ler bem é o ponto fundamental
para os que quiserem ampliar e desenvolver as orientações e
aberturas das aulas. É muito importante participar das aulas; elas
não circunscrevem, não limitam; ao contrário, abrem horizontes para
as grandes caminhadas do aluno que leva a sério seus estudos e quer
atingir resultados plenos de seus cursos. Aliás, quase todas as
cadeiras desenvolvem programas de pesquisa bibliográfica para que o
aluno desenvolva temas e reconstrua ativamente o que outros já
construíram. Para elaborar trabalhos de pesquisa, é necessário ir às
fontes, aos autores, aos livros; é preciso ler, ler muito
e, principalmente, ler bem.
Durante as primeiras aulas de qualquer
disciplina, os mestres apresentam criteriosa bibliografia; alguns
livros são básicos, ou de leitura obrigatória, para quem quer colher
todo fruto das aulas; outros são mais especializados ou se
concentram em algum item do programa, e pode, entre os tratados
gerais de consulta obrigatória, ser indicado um, como livro de
texto. A indicação do livro de texto tem vantagens e inconvenientes
cuja análise ultrapassaria os limites que este compêndio impõe.
Diremos, apenas, que o livro de texto é muito bom para a preparação
da aula, mas que o aluno não pode ater-se exclusivamente a ele. "Timeo
hominem unius libri", diziam os antigos. Devemos temer o homem
de um livro só. É necessário abeberar-se de outras fontes mais
amplas, mais especializadas sobre cada tema ou sobre cada pormenor
dos programas.
Se não é possível pensar em fazer um
bom curso sem descobrir ou fazer aparecer espaços de tempo para o
estudo extra-aula e se é necessário programar criteriosamente a
utilização desse tempo, não seria igualmente impossível pensar em
fazer um bom curso sem ter à mão boas fontes de leitura? É possível
que se pretenda fazer um curso universitário sem freqüentar
bibliotecas ou sem adquirir, ao menos, os livros básicos para cada
programa?
A leitura amplia e integra os
conhecimentos, desonerando a memória, abrindo cada vez mais os
horizontes do saber, enriquecendo o vocabulário e a facilidade de
comunicação, disciplinando a mente e alargando a consciência pelo
contato com formas e ângulos diferentes sob os quais o mesmo
problema pode ser considerado. Quem lê constrói sua própria ciência;
quem não lê memoriza elementos de um todo que não se atingiu. E, ao
terminar um curso superior, deveríamos não só estar capacitados a
repetir o que foi aprendido na faculdade, como também estar
habilitados a desenvolver, através de pesquisas, temas nunca
abordados em aula. Deveríamos ser uma pequena fonte, não um
pequeno depósito de conhecimentos, ou mero encanamento por onde as
coisas apenas passam.
É preciso ler, ler muito, ler bem.
É preciso sentir atração pelo saber, e
encontrar onde buscá-lo. É necessário iniciar este trabalho com
determinação e perseverar nele; o crescimento cultural tem crises
como o crescimento físico; quem não sente apetite não deve deixar de
alimentar-se; comprometeria sua saúde. Também na leitura trabalhada
devemos ser perseverantes; só esta perseverança garantirá aquela
espécie de saltos de integração de dados, que se vão acumulando e
associando como frutos da leitura continuada.
2- COMO SELECIONAR O QUE LER
O titulo do livro é a primeira
informação que temos sobre seu conteúdo, mas não deve figurar como
critério de escolha para a leitura. Devemos examinar sumariamente o
livro cujo título nos interessa à primeira vista; devemos ver o nome
do autor, seu curriculum; devemos ler sua "orelha", o índice
da matéria, a documentação ou as citações ao pé das páginas, a
bibliografia, assim como verificar a editora, a data, a edição e ler
rapidamente o prefácio. A convergência destes vários elementos ajuda
a selecionar o que ler. Ademais, podemos consultar professores da
respectiva área.
Todo estudante deveria interessar-se
pela formação de uma pequena biblioteca de obras selecionadas; os
livros são suas ferramentas de trabalho. O primeiro passo é adquirir
os livros citados pelos professores como indispensáveis ou
fundamentais; em seguida as obras mais amplas e mais especializadas
dentro da área profissional ou do interesse particular de cada um.
3- VELOCIDADE E EFICIÊNCIA DA LEITURA
Alguns lêem tão devagar que, ao final
de um parágrafo, já tiveram tempo para esquecer seu início, e voltam
para revê-lo. Estes retornos representam nova forma de perda de
tempo que se soma à lentidão da leitura, com enorme prejuízo. Quem
assim procede não encontra tempo para ler, pois não há tempo que
chegue e, desta forma, instala-se um verdadeiro círculo vicioso.
Normalmente, a leitura veloz não
prejudica a eficiência ou a compreensão. Quem lê bem e depressa
encontra tempo para ler e faz seu tempo render. Não existe uma
velocidade-padrão de leitura; a maior ou a menor velocidade depende
do gênero do próprio texto, bem como das peculiaridades do leitor.
Não se lêem com a mesma velocidade textos de gênero diferente, como,
por exemplo, um romance e um manual de biologia. Por outro lado,
cada um deve atingir sua velocidade ideal, mas é certo que sempre é
possível aumentar a velocidade sem prejuízo da compreensão.
Não pretendemos apresentar um curso de
leitura veloz, mas oferecer uma seqüência de normas e de
considerações que levarão normalmente a um aumento de velocidade e
de eficiência na leitura cultural, isto é, um curso que aumentará o
rendimento do esforço pessoal no estudo, através da leitura. Em
nosso caso, da leitura eficiente decorrem a captação, a retenção e a
integração de conhecimentos contidos no manancial dos textos lidos.
4- COMODIDADE E HIGIENE NA LEITURA
O ambiente material de leitura deve
reunir umas tantas condições que a favoreçam. É preferível ler em
ambiente amplo, arejado, bem iluminado e silencioso; se a luz for
artificial, deve ser difusa, e seu foco deve estar à esquerda de
quem lê. É preferível ler sentado a ler em pé ou deitado. Além do
texto a ser lido, é importante ter à mão um bom dicionário, lápis e
um bloco de papel. É de suma importância, também, o clima de
silêncio interior, de concentração naquilo que se vai fazer.
Tudo o que resumimos acima está
amplamente desenvolvido provado e justificado nos tratados de
pedagogia e de didática. Não duvidamos de sua importância, mas quem
não dispuser do ambiente ideal de leitura deve aprender a ler com
boa velocidade e eficiência num banco de jardim, numa sala de espera
ou numa fila de ônibus. Cada um constrói sua casa com as pedras que
tem.
Não se julgue impossibilitado de ler
aquele que não puder fazê-lo em ambiente de condições ideais, mas é
importante conhecer estas condições e procurar criá-las ou desfrutar
delas tanto quanto possível.
5- DEFINIÇÃO DE PROPÓSITOS
Alguém pode ler só para passar o
tempo, para não manter conversação com o cidadão estranho que se
sentou a seu lado no mesmo vagão, ou para dar ares de intelectual;
estas são maneiras de dar alguma finalidade à leitura. Mas não é
dessa finalidade ou propósito que estamos falando.
A finalidade básica da leitura
cultural é a procura, a captação, a crítica, a retenção e a
integração de conhecimentos, e isto se faz, em primeiro lugar, pela
procura das idéias mestras, das idéias principais, também chamadas
idéias diretrizes. Cada texto, cada seção, cada capítulo e, mesmo,
cada parágrafo tem uma idéia principal, uma palavra-chave, um
conceito fundamental. “... é essencial que o estudante se
preocupe em descobrir qual é essa idéia diretriz, fio condutor do
pensamento do mestre ou expositor", escreve Emilio Mira y López,
em seu Como estudar e como aprender, e continuar "Assim, pois, como
cada fábula tem sua 'moral', isto é, a sua essência significativa,
cada série de pensamentos possui uma idéia diretriz ou conceito
fundamental. Descobri-lo, quando não está em negrito, é conquistar
um dos fatores essenciais de toda aprendizagem cultural".
Em cada parágrafo, pois, o leitor deve
captar a idéia principal; deve concentrar-se em sua procura. O mau
leitor, ou seja, o leitor lento e ineficiente, lê palavras, ou
melhor dizendo, lê palavra por palavra, como se todas tivessem igual
valor ; o bom leitor lê unidades de pensamento, lê idéias e as
hierarquiza enquanto lê, de maneira a encontrar a idéia mestra ou a
palavra-chave. Quem lê idéias é mais veloz na leitura e capta melhor
o que lê. Mas isto è fruto de treinamento, de exercícios. "Se vocês,
amigos leitores, dedicassem uma hora por dia à tarefa de descobrir,
concretizar e formular as idéias diretrizes de alguns parágrafos de
diversos textos, exercitar-se-iam em uma técnica de abstração e de
síntese que lhes permitiria tirar o máximo proveito de qualquer tipo
de leitura ou estudo ulterior.
Nossa experiência de mais de vinte
anos de magistério, bem como de mais de trinta anos de continuados
estudos confirmam as palavras de Mira y López e da generalidade dos
autores que versaram sobre o assunto. Por ocasião da última
abordagem do presente assunto em classe, uma aluna tomou a palavra
para prestar interessante depoimento: "Estou cursando esta cadeira
de Metodologia com calouros, mas já estou no último semestre do
curso de Estudos Sociais. Sou transferida de outra faculdade, onde
não existe a cadeira de Metodologia. Confesso que estava chegando ao
fim do curso sem saber ler. Percebo que fui muito prejudicada.
Mas... antes tarde do que nunca!"
Esse depoimento teve mais força
persuasiva do que toda nossa aula. E aquela classe passou a
valorizar nossa cadeira, a estar mais atenta às aulas e a aplicar-se
com maior dedicação à leitura cultural para trabalhos de pesquisa
bibliográfica.
Quem não puder dedicar uma hora por
dia ao trabalho de encontrar as idéias principais de alguns
parágrafos não se julgue dispensado deste exercício; leia com este
propósito seu livro de textos, suas apostilas e toda a bibliografia
consultada na elaboração de seus trabalhos de pesquisa. Procure,
após a leitura de algumas páginas, reformular as idéias mestras;
leia novamente a passagem para verificar se atingiu o propósito de
toda leitura cultural, que é captar, reter, integrar e evocar
conhecimentos reformulados. "Crie o hábito de encontrar a idéia
principal em cada parágrafo que ler. Quando julgar tê-lo feito,
confira sua conclusão e mantenha a idéia em mente enquanto continua
a ler, e compare-a, especialmente, com a sentença-sumário. Se tiver
dúvidas a respeito de sua seleção, releia o parágrafo, desta vez
olhando-o bem para se certificar de que captou a idéia correta.
Lembre-se, porém, de que nem sempre pode encontrá-la numas poucas
palavras dadas; talvez, tenha de refraseá-la com palavras suas (uma
boa prática, afinal de contas) para captá-la com exatidão.
6- A IDÉIA MESTRA EM SUA CONSTELAÇÃO
Não existem capítulos, seções ou
livros só com idéias mestras; estas seriam encontradas nos índices,
nos prefácios e nos sumários. Nem é possível captar, hierarquizar,
criticar, reter ou evocar idéias mestras totalmente despojadas de
pormenores importantes. A idéia principal aparece sempre numa
constelação de idéias que gravitam à sua volta; um argumento que a
justifique, um exemplo que a elucide, uma analogia que a torne
verossímil e um fato ao qual ela se aplique são elementos de
sustentação da idéia principal.
O bom leitor não lê só o essencial ;
não lê apenas resumos com o propósito insano de memorizá-los. O bom
leitor produz seus resumos, é verdade; e procura acompanhar a
montagem, o encadeamento, a articulação das idéias em amplos e
profundos textos nos quais as idéias principais são fundamenta das
em bases sólidas, em demonstrações de validade ponderável, em fatos
de evidência comprovada, em documentos insofismáveis, ou são
aplicadas na solução de problemas ou na definição ou normalização da
conduta.
Quem alega, por ocasião de exames ou
em conversações rotineiras, que tem facilidade para responder a
perguntas essenciais, mas não se interessa por pormenores e "coisinhas"
está confessando, embora não seja esta a sua intenção, que não lê ou
não sabe ler, que não estuda ou não sabe estudar.
É importantíssimo discernir o
principal e o secundário, a idéia mestra e os pormenores mais
importantes ou menos importantes. Memorizar índices, enunciados,
teses, ou postulados não exime ninguém da pecha de mau leitor, de
mau estudante ou de pseudo-selecionador de preciosidades. Quem
procede assim não tem razão para escusar-se; deve mudar de conduta e
começar a ler e a estudar com inteligência e sabedoria, isto é, com
amor pelo saber.
7- SUBLINHAR COM INTELIGÊNCIA
Sublinhar é una arte que ajuda a
colocar em destaque as idéias mestras, as palavras-chave e os
pormenores importantes. Quem sublinha com inteligência está
constantemente atento à leitura; descobre o principal em cada
parágrafo e o diferencia do acessório; este propósito o mantém
concentrado e em atitude de critica durante todo o tempo dedicado à
leitura. Além desse efeito benéfico, já durante a leitura, o hábito
de sublinhar com inteligência favorece o trabalho das revisões
imediatas, bem como as revisões globalizadoras posteriores.
Há leitores que ouviram falar na
vantagem de sublinhar, ou que tiveram colegas excelentes nos estudos,
cujos livros estavam sempre sublinhados inteligentemente; por isso
resolveram sublinhar também. Mas esses imitadores de coisas vão
sublinhando logo na primeira leitura todas as palavras que parecem
mais importantes em determinado parágrafo, e seguem em frente como
se tudo estivesse perfeitamente localizado, hierarquizado, captado,
entendido.
Sublinhar é una técnica que tem suas
normas. Se essas normas não forem observadas, o sublinhamento
indiscriminado atrapalhará mais do que ajudará, quer durante a
leitura, quer por ocasião das revisões.
8- NORMAS PARA SUBLINHAR
Cada um pode adotar uma simbologia
arbitrária e pessoal para sublinhar e fazer anotações à margem dos
textos. Basta que a simbologia adotada mantenha uma significação bem
definida e constante. Entretanto, poderíamos sugerir algumas normas
colhidas em fontes credenciadas e em larga experiência pessoal:
a) Sublinhar apenas as idéias
principais e os detalhes importantes- Não se deve sublinhar em
demasia. Não sublinhar longos períodos; basta sublinhar palavras-chave.
Aplica-se ao caso o adágio latino "non multa, sed multum", que
traduziríamos, adaptando a nosso intento: não sublinhar multa, isto
é, muitas coisas, mas sublinhar multum, isto é, muito significativo.
b) Não sublinhar por ocasião da
primeira leitura - As pessoas mais experimentadas, que examinam
textos pertinentes à sua área de especialização, sublinham
inteligentemente por ocasião da primeira leitura; mas recomenda-se
aos principiantes que não o façam; leiam primeiro um ou mais
parágrafos, e retomem para sublinhar aquelas palavras ou bases
essenciais que, desde a primeira leitura, foram identificadas como
principais, e que a releitura mais rápida confirma como tais.
c) Reconstituir o parágrafo a
partir das palavras sublinhadas - É supérfluo esclarecer esta
norma que traduz a natureza e a finalidade do ato de sublinhar.
d) Ler o texto sublinhado com a
continuidade e plenitude de sentido de um telegrama - Por
ocasião das revisões imediatas ou posteriores, os textos sublinhados
de acordo com esta norma permitirão uma leitura rapidíssima, apoiada
nos pilares das palavras sublinhadas; por outro lado, a leitura das
palavras sublinhadas, embora pertencentes a frases diferentes e até
distanciadas, terá um sentido fluente e concatenado.
e) Sublinhar com dois traços as
palavras-chave da idéia principal, e com um único traço os
pormenores importantes - Devemos sublinhar tanto as idéias
principais como os detalhes importantes, mas é bom agir de tal
maneira que as idéias principais se mantenham destacadas.
f) Assinalar com linha vertical, à
margem do texto, as passagens mais significativas - Não raro, a
idéia principal retorna em diversos parágrafos e em diversos
contextos. E há passagens em que o autor atinge uma espécie de
clímax; essas passagens, que poderíamos transcrever em nossas fichas
de documentação pessoal, devem ser identificadas para futuras
buscas. Nada melhor que um traço vertical à margem do texto para tal
identificação.
g) Assinalar com um sinal de
interrogação, à margem, os pontos de discordância - Podemos não
concordar com as posições assumidas pelo autor, como também perceber
incoerências, paralogismos, interpretações tendenciosas de fontes e
uma série de falhas ou de colocações que julgamos insustentáveis,
dignas de reparos ou passíveis de críticas. Devemos registrar o fato
mediante uma interrogação à margem do texto em apreço.
Há quem fale do uso de cores
diferentes para assinalar idéias principais e pormenores
importantes, em lugar de usar um ou dois traços, conforme
preferirmos, bem como do uso de uma terceira cor para assinalar
pontos mais difíceis ou que não tenham ficado claros. Para assinalar
pontos mais obscuros, quer durante a leitura de preparação para as
aulas, quer durante as leituras ulteriores, em textos de maior
desenvolvimento, preferimos a utilização de lápis e não de canetas a
tinta. De resto, aplica-se ao caso o provérbio latino "de gustibus
et cloribus nom disputatur", isto é, "a respeito de preferências e
de cores não se deve discutir": que cada um adote a simbologia que
melhor lhe pareça.
9- VOCABULÁRIO E LEITURA EFICIENTE
Muita gente lê mal porque não tem bom
vocabulário e não tem bom vocabulário porque lê mal, o que se torna
um círculo vicioso que deve converter-se em círculo virtuoso, para
todo aquele que aspira atingir nível de crescimento cultural.
O domínio cada vez mais amplo do
vocabulário enriquece nossa possibilidade de compreensão e concorre
para aumentar a velocidade na leitura.
Mas como aumentar nosso vocabulário?
Decorando algum dicionário? Quem o fez em seu tempo de estudante, em
eras que não voltam mais, confessa que o trabalho era penoso;
entretanto, acaba agradecendo aos professores exigentes de seu
tempo. Mas o melhor recurso para aumentar o próprio vocabulário é,
sem dúvida, a leitura.
Como proceder ante uma palavra de
sentido desconhecido, ou que assume sentido novo em determinado
contexto? Morgan e muitos outros recomendam a imediata consulta aos
dicionários: "A primeira coisa a fazer é procurá-la num dicionário.
" Por nossa parte, sugerimos que se experimente não interromper a
leitura ante um termo de sentido desconhecido ; não raro, a
seqüência do texto deixará bem claro o sentido da palavra
desconhecida; anote, pois, a palavra desconhecida em um papel avulso,
e continue a ler. Ao final de um capitulo, apanhe o dicionário para
esclarecer todas as palavras anotadas como desconhecidas e verifique
o sentido que melhor se coaduna com o respectivo contexto. Assim,
durante a segunda leitura, em que se sublinham as idéias principais
e os pormenores importantes, todos os termos estarão claros e
incorporados a nosso vocabulário. Adote a sugestão da consulta
imediata ou a sugestão de não interromper a leitura cada vez que
encontrar uma palavra desconhecida. O fundamental é que não se deve
perder a oportunidade de enriquecer o próprio vocabulário pela
preguiça da busca de palavras novas em algum dicionário. Por certo,
estaríamos prejudicando a compreensão do texto e impedindo o próprio
crescimento cultural. Que dicionários consultar? Não se entende um
estudante de nível superior que não tenha um bom dicionário comum da
língua materna. Mas há certas palavras que, embora incorporadas à
linguagem vulgar, conservam ou assumem sentido específico, definido
pelas diversas ciências, como a botânica, a biologia, a medicina, a
filosofia, e assim por diante. Outras palavras não constam nos
dicionários comuns, mas tão-somente nos dicionários de maior porte
ou em dicionários técnicos das diversas áreas. O estudante deve
adquirir um bom dicionário dentro de sua área de especialização.
Entretanto, as faculdades mantêm bibliotecas ricas em fontes de
consulta, com grande variedade de dicionários e enciclopédias à
disposição de seus alunos. Não é preciso que cada um compre
enciclopédias caríssimas para usar uma vez ou outra; com- o dinheiro
de uma enciclopédia de generalidades monta-se uma preciosa estante
com obras da própria especialidade, inclusive com dicionários
técnicos ; e isto parece ser mais útil.
10- USAR MELHOR A VISTA
Durante a leitura, nossos olhos
percorrem as linhas não em movimento continuo, mas aos pulos, não
lemos durante o movimento dos olhos, mas nas suas rápidas paradas,
que podem ser observadas com aparelhos adequados. Nossos olhos podem
fixar-se em uma sílaba, em uma palavra, ou em um grupo de palavras,
nessas paradas de reconhecimento dos estímulos gráficos. Quanto mais
amplo for este campo de parada ou de reconhecimento, mais veloz será
a leitura; e como essas paradas incidem em palavras principais, mais
compreensível toma-se o texto.
O bom leitor não lê palavra por
palavra, muito menos sílaba por sílaba; sua vista incide sobre
grupos de palavras; a pausa de reconhecimento deste grupo de
palavras é curta. Mas, esta habilidade é fruto de exercícios e da
prática da leitura.
Sugerimos que se façam exercícios de
leitura, procurando fixar em cada grupo de palavras as sílabas
iniciais, como se o texto estivesse escrito com abreviaturas.
11- LER E LEVANTAR ESQUEMAS E RESUMOS
Para acentuar os propósitos da leitura,
para melhor captar, discernir, assimilar, gravar e facilitar a
evocação futura dos conteúdos da leitura, nada melhor do que
procurar reproduzir ou refrasear aquilo que lemos: "Se você resolver
anotar brevemente o que o autor diz, não pode evitar que o que ele
diz se torne parte do seu próprio processo mental."
Quem lê bem, de lápis na mão, à
procura das idéias diretrizes e dos pormenores importantes, já
preparou caminho para o levantamento do esquema seguido pelo autor,
bem como para a elaboração do resumo daquilo que leu. Quem faz
leitura trabalhada exercita-se na habilidade de discernir o
principal e o acessório, e deixa assinalado, durante a leitura, tudo
o que poderia fornecer elementos para o levantamento do esquema,
para a elaboração do resumo ou para transcrições em fichas de
documentação pessoal. Ao contrário, quem não lê com discernimento,
ou quem não sublinha com inteligência, fará resumos falhas, sínteses
mutiladas que mais atrapalharão nos estudos e confundirão nas
revisões do que ajudarão.
11. 1 Natureza, função e regras do
esquema
Esquema é o plano, a linha diretriz
seguida pelo autor no desenvolvimento de seu escrito; esse plano
delimita um tema e estabelece a trajetória básica de sua
apresentação, subordinando idéias, selecionando fatos e argumentos.
A função do esquema, pois, é definir o
tema e hierarquizar as partes de um todo numa linha diretriz, para
torná-lo possível a uma visão global. Pelo esquema, pode-se atingir
o todo numa única mirada.
A elaboração ou levantamento do
esquema obedece a algumas regras:
a) Seja fiel ao texto. Não se
pode trabalhar com esquemas fixos ou preconcebidos e forçar o texto
lido a entrar neles.
b) Apanhe o tema do autor, destaque
títulos, subtítulos que guiaram a introdução, o desenvolvimento
e as conclusões do texto.
c) Seja simples, claro e
distribuído organicamente, de maneira a apresentar límpida
imagem concentrada do todo.
d) Subordine idéias e fatos,
não os reúna apenas.
e) Mantenha sistema uniforme de
observações, gráficos e símbolos para as divisões e subordinações
que caracterizam a estrutura do texto.
11.2 Natureza, função e regras do
resumo
O resumo pedagógico, não
necessariamente científico, consiste no trabalho de condensação de
um texto capaz de reduzi-lo a seus elementos de maior importância.
Não estamos considerando, no contexto da presente análise, os
resumos elaborados com o intuito de divulgação científica nas seções
especializadas de jornais ou revistas, mas o resumo como recurso de
aprendizagem e como material adaptado ao trabalho de revisão.
O resumo difere do esquema e do
sumário porque é formado por parágrafos de sentido completo; sua
leitura dispensa a do texto original, no que diz respeito ao
levantamento dos conteúdos; não indica tópicos apenas, mas condensa
sua apresentação. Ademais, os resumos comportam apreciação critica a
partir de uma posição assumida.
"Numerosas pesquisas, a propósito,
provaram que recordamos muito melhor as coisas que fazemos... " (Morgan,p.69)
O trabalho de resumir ajuda a captação, a análise, o relacionamento,
a fixação e a integração daquilo que estamos estudando, assim como
facilita sua evocação e reduz o tempo destinado à preparação de
provas, aumentando o aproveitamento geral.
Não concordamos com a sugestão de
elaborar por escrito resumos de tudo o que estudamos. Isso pode ser
muito bem, ou mesmo necessário, quando o texto em apreço é muito
amplo ou de acesso difícil, pois não temos condição ou interesse de
possuí-lo ; isso acontece quando estamos pesquisando obra rara em
uma biblioteca pública, por exemplo. O resumo toma-se aconselhável
quando ouvimos uma aula ou conferência profunda e amplamente
desenvolvida, ou quando estamos coletando material para um trabalho
de maior fôlego. De resto, o resumo será útil para testar nosso
entendimento de textos mais difíceis, para nos exercitar na arte de
redigir com clareza e concisão. Mas, um texto lido, trabalhado,
analisado, sublinhado, com anotações à margem, é um resumo em
potencial; não concordamos com a posição daqueles que prescrevem a
prática do resumo escrito de tudo o que se lê como condição
necessária ao estudo eficiente. Voltemos à idéia fundamental: quem
lê bem será capaz de elaborar bom resumo, e obedecerá quase
espontaneamente às seguintes regras:
a) Não pretender resumir antes de
ler, de esclarecer todo o texto, de sublinhar, de fazer breves
anotações à margem do texto - Quem pretende fazer resumo
enquanto lê acaba sendo tão prolixo como o original e muito menos
perfeito. Podem-se, entretanto, anotar em papel avulso dados que,
possivelmente, serão depois incorporados ou mesmo salientados no
resumo. Por outro lado, resumo é trabalho de "extração" e não de "criação".
É possível fazer um resumo daquilo que se sabe, independente de
qualquer texto, mas resumo de "texto" supõe, necessariamente,
fidelidade ao texto e, conseqüentemente, leitura e exame prévios.
b) Ser breve e compreensível -
Se é resumo, que não se estenda em demasia; mas, como deve ser
suficiente, isto é, como deve dispensar a leitura do texto original,
o resumo não pode permanecer nas indicações sumários de tópicos,
como acontece com o esquema.
c) Percorrer especialmente as
palavras sublinhadas e as anotações à margem do texto-Depois de
uma primeira leitura geral e corrida, depois de todos os
esclarecimentos de termos e conceitos, depois de uma segunda leitura
com anotações, está preparado o caminho para um resumo perfeito; nem
é preciso reler todo o texto; basta seguir as anotações e sublinhas.
d) Nos casos de transcrição
textual, usar aspas e fazer referência completa à fonte - Às
vezes, o próprio autor condensa admiravelmente seu pensamento em
passagens lapidares; podemos transcrever tais passagens,
enriquecendo e valorizando nosso resumo, mas é importante destacar
tais textos e transcrevê-los entre aspas, indicando a fonte.
e) Juntar, especialmente ao final,
idéias integradoras, referências bibliográficas e críticas de
caráter pessoal – Os resumos, embora marcados pelo caráter de
objetividade e de fidelidade às fontes, comportam inclusões de
crítica pessoal e certas anotações de caráter integrador; diríamos
que os resumos podem e devem ser "personalizados".
12- COM O TEXTO DIANTE DOS OLHOS
Se entendermos, ao término de nossas
considerações sobre o estudo através da leitura trabalhada, a
importância desse recurso, no processo de crescimento cultural, a
que devem necessariamente aspirar todos os que ultrapassaram o
vestíbulo de uma faculdade, para devotar-se à conquista da formação
superior; se nos convencermos da necessidade de partir, como
propósito básico, em qualquer leitura cultural, à procura da idéia
mestra e dos pormenores importantes que serão sublinhados,
discutidos, analisados, assimilados, reduzidos a esquemas e resumos,
numa atividade de excelentes resultados práticos; se compreendermos
que é assim que nos preparamos para os exames e para as
responsabilidades profissionais de amanhã; se isso acontecer aos
nossos leitores como acontece a nossos alunos em classe, no primeiro
mês de aula, estamos atingindo nosso objetivo.
Entretanto, é necessário pôr em
prática aquilo que se aceitou como importante e eficaz na vida de
estudos. Pode haver dificuldades numa primeira tentativa de leitura
trabalhada, mas é necessário iniciar e perseverar nesta prática. Em
breve, sentiremos concretamente seus efeitos benéficos. E todo nosso
curso e todas as nossas leituras beneficiar-se-ão dessa maneira
correta de trabalhar sobre um texto.
Tome seu texto, seja ele qual for;
sente-se, acomode-se à mesa, com um dicionário e um bloco para
apontamentos ao lado. Concentre-se, suavemente, no trabalho que vai
iniciar, certo de que não é hora de se distrair com problemas
alheios ao propósito de ler com aplicação e inteligência. Numa
espécie de fase inicial de aquecimento e concentração, comece lendo
o título do assunto, os subtítulos, o sumário, se houver; só então
inicie a primeira leitura geral com a atenção sempre voltada para as
idéias mestras e para os pormenores importantes; caminhe
decididamente; se encontrar termos desconhecidos, anote-os em papel
avulso; não perca de vista os titulas e os subtítulos; descubra e
acompanhe a trajetória percorrida pelo autor; assinale a lápis, à
margem do texto, o que lhe parecer digno de ulteriores considerações;
mas não se detenha, caminhe até o fim com velocidade compatível com
a compreensão do texto. Ao chegar ao rim, procure esclarecer o
sentido das palavras desconhecidas que anotou durante a leitura.
Essa sessão de estudos não deve ultrapassar vinte minutos ou meia
hora; programe, pois, previamente, o ponto a que deve chegar, que
pode ser um subtítulo do texto; neste caso, continue sua leitura até
ao final do capítulo ou do texto em apreço.
Recomece a segunda leitura procurando
no texto respostas às questões que o autor se propôs analisar ou que
você mesmo formulou após a primeira leitura; atenda, agora, aos
sinais que foi fazendo à margem do texto durante a primeira leitura.
Detenha-se em cada parágrafo; sublinhe as idéias principais e os
pormenores importantes; examine a coerência, a estrutura lógica do
texto ; pondere a natureza e a força dos argumentos, a validade dos
exemplos e a perfeição das divisões; questione, compare, critique ;
faça breves anotações à margem do texto; assinale pontos obscuros
para debater com colegas ou professores. Vá associando novas
conquistas a seus conhecimentos anteriores, integrando-as,
enriquecendo-as com algo de seu, ao mesmo tempo em que se enriquece
com elas, pois o crescimento cultural não se realiza por agregação
ou superposição de camadas de conhecimentos, mas por gestação de
concepções, como diria Sócrates. Crescimento cultural é processo
vital de captação, análise, reconstituição ou síntese, assimilação
ou integração unificada e unificante das partes ou elementos em um
todo maior.
Não alegue que este trabalho supõe um
cabedal de conhecimentos; isto é ou pode ser verdade; entretanto, é
preciso começar para ir adquirindo cabedal sempre maior de
conhecimentos; é ele que, em grande parte, é fruto da leitura
trabalhada.
A segunda leitura é mais trabalhosa,
mas oferece em troca excelentes gratificações. Ela disciplina nossa
razão, desenvolve o senso crítico, alimenta o espírito científico,
promove o nosso real desenvolvimento à semelhança da digestão sempre
mais lenta e mais proveitosa que a ingestão. Ao término dessa
segunda leitura, está aplainado o caminho para qualquer espécie de
esquematização, resumo ou fichamento, que se queiram fazer. Dizemos
"que se queiram fazer", porque, como já dissemos, não precisamos
elaborar esquemas, resumos e fichamentos escritos de tudo o que
lemos. Parece-nos um exagero de teóricos as prescrições insistentes
em sentido contrário. Mas, quando o texto é muito longo ou difícil,
ou mesmo elaborado sob forma de exercício, é bom refraseá-lo através
de resumos, conforme as normas acima citadas, Quem não é capaz de
resumir mentalmente ou oralmente um filme a que assistiu; uma peça
de teatro, um romance ou um texto, sem precisar tê-lo feito antes
por escrito?
Não basta ler uma, duas, ou até três
vezes o mesmo texto. É preciso parar para analisá-lo, criticá-lo,
discuti-lo, questioná-lo, anotá-lo, sublinhá-lo, retê-lo, refraseá-lo
mentalmente e, quando necessário, em resumos escritos; é preciso
captar com discernimento, analisar, associar, assimilar e reter com
tenacidade, crescer através do desenvolvimento interno e não por
agregação ou amontoamento desordenado de informações superficiais e
assistemáticas. A leitura cultural é um trabalho de garimpeiro; é um
trabalho, não um passatempo ocioso.
Muitos alunos confessaram francamente
que não pensavam ser a leitura tão importante. E declararam também
que não sabiam ler.
Nosso objetivo neste item é simples e
direto: mostrar como se lê e mostrar que é fácil ler bem. Quem não
sabe ler jamais amará a leitura ou tirará dela o esperado beneficio.
Quem aprendeu a ler confessa que passou a gostar de ler e a tirar
grandes vantagens do estudo através da leitura; passou a encontrar
tempo para ler e fazê-lo mais depressa e com melhor compreensão.
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Texto extraído das páginas 34 até 47, do livro:
RUIZ, J. A.
Metodologia Científica: guia para eficiência nos estudos. São
Paulo: Atlas, 1996.
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