Educação no Brasil
por Cláudio de Moura Castro
Finalmente, a
desperta a educação no Brasil
Com
um sistema educacional tão fraco, é difícil entender como o Brasil
conseguiu crescer em ritmo tão acelerado. Entre 1930 e 1993 a
economia do Brasil cresceu (em termos absolutos) mais depressa que a
do Japão ou da Coréia, países geralmente dados como exemplo de
progresso econômico.
Convém lembrar que o Brasil teve um florescimento econômico tardio,
mesmo na América Latina. Durante o século XIX era mais pobre que o
Peru e o crescimento era muito lento. Em 1913, a renda ‘per
capita’ da Argentina era 4,5 vezes mais alta que a brasileira.
Só depois da Primeira Guerra Mundial, a economia brasileira
floresceu. Após a Segunda Guerra Mundial, o crescimento foi
espantosamente elevado - entre os mais altos do mundo. Sem dúvidas,
de nível recorde, exibindo uma média de 7,4%, entre 1950 e 1980.
Apesar de algumas realizações na segunda metade do século, o sistema
educacional ficou para trás, seja comparado ao rápido crescimento
econômico que se seguiu, seja comparado a outros países
latino-americanos muito mais pobres que o Brasil. E o elo mais fraco
continuou sendo a educação primária. Contudo, a educação deu um
grande salto, a partir meados da década de 90.
Não
é que a educação brasileira haja travado no século XX. Até pelo
contrário, avançou muito, sobretudo na segunda metade do século.
Parte do atraso resulta de que era historicamente muito precária e
que o país cresceu depressa demais para ela.
Não
obstante, a educação não foi homogeneamente ruim, de forma a impedir
as taxas de crescimento econômico extraordinárias, a partir da
metade do século. Havia alguns enclaves de gente bem educada,
puxando a economia para frente.
Não
obstante, os processos econômicos ficaram mais complicados e as
responsabilidades de manejo mudaram para níveis hierárquicos mais
baixos. As novas tecnologias passaram a exigir gente que passou mais
anos na escola e aprendeu mais nesse processo.
A
boa notícia é que o brasileiro está começando a ver: sem educação
não há bons empregos. Já são dispensáveis os sermões sobre a
importância da educação. O povo já viu. Tanto é que se recusa a
abandonar a escola, apesar de acumular reprovações e aprender pouco.
Os que terminam o primeiro grau acumularam duas repetências. Outros,
que a abandonaram no passado, voltam em massa.
A
educação transforma-se em carro-chefe nas campanhas de candidatos.
Os governantes estaduais e municipais, com bom desempenho na
educação, aumentaram suas chances de serem re-eleitos. Como o povo
começa a se preocupar com educação, escola vira notícia. De fato,
uma pesquisa recente mostrou, em apenas dois anos, um aumento de 35%
no espaço dos jornais brasileiros dedicados à educação.
Portanto, nessa virada de século há uma nova equação: (1) A economia
não se contenta com gente menos educada. (2) O povo percebeu isso e
começa a reclamar. (3) Os governantes não são insensíveis às novas
demandas políticas e começam a mobilizar equipes mais capazes de
responder ao novo desafio. Por isso, a educação está mudando.
Até
à Segunda Guerra, o país tinha um sistema educativo equilibrado: era
pequeno e ruim em todos os níveis – apesar de haver enclaves de
excelência, também em todos os níveis. Apenas a metade dos jovens
brasileiros ia à escola. O segundo grau, diminuto, era ainda mais
elitizado, tanto no público quanto no privado. O superior era
ínfimo. Pior, era retardatário, pois a primeira universidade foi
criada anos 30, enquanto outros países da região as tinham desde o
século XVI.
Mas
a partir dos sessenta, houve uma extraordinária vontade política de
construir uma grande rede de universidades federais, demonstrada por
orçamentos vultuosos, dedicados a tal tarefa. Este virou um grande
projeto nacional. Aí estaria a salvação, pois o desenvolvimento
econômico se via muito proximamente associado à formação de
lideranças.
Foi
também criada uma excelente pós-graduação, modelada nos padrões
americanos. Sem ela, o crescimento universitário seria forçado a
multiplicar as suas estruturas caducas e recrutar um corpo de
professores cada vez mais despreparado. Gastou-se muito e obteve-se
muito. Na América Latina, o Brasil tem hoje, de longe, o melhor
parque de ensino superior, pós-graduação e pesquisa – esta última
concentrada nos melhores grupos da pós-graduação. Foi graças a esses
quadros que o Brasil passou a ser o país de mais rápido crescimento
no mundo.
Mas
se a cabeça do sistema cresceu, o mesmo não se pode dizer das
pernas. Ao gigantesco esforço de desenvolver o nível mais alto, não
correspondeu nada parecido nos outros níveis. As pernas ficaram tão
bambas quanto antes. Tanto faltava quantidade, quanto qualidade no
fundamental e no médio. Foi a grande oportunidade perdida. Nos anos
setenta, alguns já se alarmavam com o desequilíbrio. Mas, só em
1995, a metade de cada coorte passou a terminar o primeiro grau.
Mas
se o setor produtivo conseguia sobreviver, a iniqüidade econômica
corria ‘pari passu’ com a desigualdade educativa entre
regiões, perpetuando zonas de pobreza, preservando um elitismo
secular. Do ponto de vista político, o sistema estava em perfeito
equilíbrio. Onde havia uma demanda política nutrida – no nível
superior, capturado pelas elites – o sistema havia respondido.
Mas
logo o sistema tropeçou. A perna frágil não deu conta da cabeçorra.
Por duas décadas, a matrícula nas universidades federais ficou
estagnada. Não tínhamos mais matrícula no superior, pela simples
razão de que não havia matéria prima para nele entrar. Daí a
estagnação. O bloqueio começava no fundamental, bloqueando bem mais
da metade da população. Como conseqüência, o médio era diminuto na
sua matrícula e não muito menos feroz em bloquear os avanços. O país
chegou a ter quase tantas vagas no início do superior quanto
graduados de ensino médio – um resultado aberrante.
Nesse ínterim, a explode a demanda por gente com mais anos de
escolaridade e, acima de tudo, sabendo mais. Criam-se então as
condições para o abalo sísmico que começa no início da década de
noventa e vai se acelerando com o passar do tempo.
A
conjugação de uma economia mais moderna e exigente, pais e alunos
entendendo essas transformações e governantes cujos radares captaram
as mudanças de clima produziu uma novidade na história na educação
brasileira: quanto mais baixo o nível, mais melhorou. Quanto pior
era, mais melhorou. A maior sacudida foi no primeiro grau. Com o seu
desbloqueio, o segundo começa a explodir e se modifica. O superior
pouco melhorou. E a pós- graduação, ‘as jóias da coroa,’
viveu um longo jejum de reformas, embora continue essencialmente
sadia.
Finalmente, o MEC adotou a postura correta de formulador de
políticas e avaliador do sistema, ao invés de fazedor (desastrado).
Ficou apenas com alguns programas mais críticos (e
descentralizados), tais como merenda escolar, livros didáticos (110
milhões enviados a cada ano). Concentrando nesses e alguns outros
poucos, pode fazer um bom trabalho. Mas isso, obviamente, resulta de
que os estados e municípios começaram a amadurecer, para ocupar o
espaço abandonado pelo MEC.
O
FUNDEF (um fundo que redistribui gastos entre municípios pobres e
ricos), revelou-se um dos mais importantes instrumentos de eqüidade,
jamais tentados na educação. Com ele, os gastos no Nordeste tiveram
aumentos de 89%, permitindo aos professores receberem aumentos de
50% nos salários. Logo após sua implementação, a matrícula cresceu
de 6% e gerou 153 000 empregos docentes.
Observam-se, ainda, avanços céleres em uma área onde o Brasil era um
retardatário: as estatísticas e a avaliação. O MEC tinha um dos mais
lamentáveis sistemas de estatísticas educacionais, até que nos
noventa há uma verdadeira revolução de idéias e de pessoas. O país
vira o século com um dos melhores sistemas de estatísticas
educacionais do hemisfério.
No
início dos noventa, falar em testes de rendimento de aluno era uma
temeridade. Mas hoje o Sistema de Avaliação da Educação Básica – o
SAEB - mede quem aprendeu e quem não aprendeu. O Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais - INEP cria um exame nacional
para graduados do superior, o Provão – um sistema único no mundo.
Hoje o Brasil é o único país onde qualquer um pode ler no jornal ou
na Internet a nota atribuída a praticamente todos os cursos
superiores. Outra novidade é o Exame Nacional do Ensino Médio – o
ENEM - uma prova bastante sofisticada, medindo o que se deveria
saber ao terminar o médio. Como a Coordenação de Aperfeiçoamento De
Pessoal De Nível Superior – a CAPES - já vinha avaliando e dando
notas à pós-graduação desde 1976, isso significa que o Brasil tem um
sistema de avaliação em todos os níveis de escolaridade. A educação
pode não ser boa, mas pelo menos sabe-se, com certa precisão, como
anda. Tal monitoramento é de extrema utilidade para consertá-la.
No
ensino superior público, a herança de uma governabilidade truncada e
irracional tem se revelado difícil de eliminar. As universidades
parecem estar atravessando uma fase de transição, com sintomas de
baixa governabilidade, ou estão, em alguns casos, simplesmente
ingovernáveis. Há que se criar novos modelos de controle e
acompanhamento de uma instituição complexa como as universidades. Na
verdade, a gestão das universidades federais, foi um dos aspectos
mais vulneráveis da agenda de mudanças do MEC. Os progressos foram
poucos e insuficientes para reverter um quadro de desencanto e
pessimismo nos cursos de graduação – apesar de que não houve uma
redução nos orçamentos dedicados às federais. Há um sério impasse
político e inúmeras regras do serviço público que se revelam
totalmente inadequadas para instituições de ensino. É bem verdade, a
pós-graduação tem regras meritocráticas, outras fontes de
financiamento e segue aumentando o número de mestres e doutores
produzidos, bem como a produção científica. Mas esse é um outro
mundo, alheio às greves desgastantes e aos problemas que assolam o
ensino de graduação.
Diante desse quadro, o ensino superior privado avança, já
matriculando mais de dois terços do alunado. É um sistema
heterogêneo, mas de grande dinamismo e uma clara tendência para
melhorar. É um sistema voltado para o ensino e não para a pesquisa,
pois praticamente não recebe subsídios públicos.
Na
década de 90, começa a endireitar um sistema macrocefálico e de
execução fortemente centralizada no Governo Federal.
No todo, o balanço é
muito positivo:
-
A matrícula inicial praticamente se universalizou,
com 97% da população de 7 a 14 anos freqüentando a escola.
O Brasil deixa de fabricar analfabetos.
-
Em 1998, 63% dos jovens terminava os oito anos do
fundamental (embora mais velhos do que o desejado). Lembremo-nos,
é mais do que chegavam na escola, faz menos de meio século.
Ademais, a taxa de crescimento nas conclusões do ensino
fundamental tem estado acima de 10% e a repetência começa a
regredir (nos últimos cinco anos, a distorção idade-série caiu de
64% para 47%). O mais admirável é que essa explosão se dá sem
queda mensurável na qualidade (como indicado pelos testes do SAEB).
-
O segundo grau explode, passando de 2,5 milhões em
1993 para 8 milhões na virada do século. Ninguém sabe o que vai
acontecer com a qualidade, mas até agora vem resistindo – ou seja,
os testes mostram que não está piorando.
-
O superior já vem sentindo os bafejos de um médio
que se infla
.
No ano de
2000, as matriculas aumentaram 13.7% em relação a 1999. – o mais
alto índice apurado desde 1991. Entre 1995 e 2000, esse crescimento
foi da ordem de 63%. Pela primeira vez, o número de doutores e
mestre atuando no ensino superior atingiu a metade do total.
-
Os recursos vêm sendo descentralizados para escolas
e municípios. Casos típicos são a merenda, a escolha dos livros
didáticos e os recursos repassados diretamente às escolas.
-
Em vários estados, diretores de escolas básicas
passam a ser submetidos a um processo eletivo. Isso significa uma
regressão da influência da política partidária e do nepotismo nas
escolas. Foram também criados Conselhos Escolares, formados pela
sociedade civil, para cuidar dos gastos e da qualidade da educação
oferecida pelas escolas públicas.
-
O sistema de estatísticas da educação nacional é
aprimorado e revigorado, tornando-se um poderoso instrumento para
se definir o que fazer, onde, como e quanto custa, melhorar a
qualidade educativa do país.
No
todo, é um cenário muito mais otimista do que os mais otimistas
poderiam esperar no início da década de 90. Há energia na política
educativa, na administração e nos sistemas de ensino. Os números
disparam. O Brasil saiu de um sistema politicamente equilibrado e
educacionalmente trágico. Passou a um sistema politicamente
desequilibrado, gerando as tensões requeridas para o atrevimento que
transforma. Houve progresso. A educação, que era muito deficiente,
deu um salto considerável, embora ainda esteja longe de
satisfatória. E a sociedade está aprendendo as artes da mudança.
Uma
enorme interrogação é a continuidade do processo. Reforma séria não
se faz desembainhando a espada e bradando palavras tonitruantes, mas
sim com sentido claro de direção e com persistência, teimosia,
obstinação.
Mas
muito falta para fazer. A tarefa é gigantesca. Na década de noventa,
muito se avançou, quase nada regrediu. Mas vários problemas ficaram
parados, sem solução. Há muitas fragilidades:
-
A qualidade em todos os níveis ainda é muito
deficiente.. Um primeiro grau sério e de qualidade é a meta mais
importante e ainda longe de ser atingida, sobretudo nos municípios
mais pobres.
-
A falta de eqüidade é uma conseqüência direta e
grave da falta de qualidade da educação. O sistema é meritocrático
nas suas regras e na sua superfície. Mas os alunos são peneirados
progressivamente, pela falta de qualidade. Sobretudo nas escolas
atendendo às clientelas mais pobres, persiste a repetência,
seguida do atraso e, finalmente, da deserção. À entrada da
universidade, os dois terços de alunos de classe trabalhadora que
chegaram ao primeiro ano do fundamental já se reduziram a menos de
um quinto do total de alunos.
-
Falta equacionar e implementar as carreiras
docentes e as fórmulas administrativas para preparar professores.
Como não se faz bom ensino sem bons professores, esse hoje é o
calcanhar de Aquiles do ensino fundamental e médio.
-
A diversificação no ensino superior está atrasada.
Somente agora crescem os cursos pós-médios curtos. Ainda mais
atrasada está a legislação sufocante que tudo quer controlar e
pasteurizar – sem que realmente coíba os abusos dos
inescrupulosos.
-
O ensino público superior é tolhido por uma coleção
de regras burocráticas obsoletas.
O
tratamento do privado ainda é vacilante e imperfeito.
-
O crescimento do ensino privado superior está
começando a encontrar barreiras na capacidade de pagamento das
novas gerações mais modestas que agora começam a completar o
ensino médio. Sem uma política enérgica de crédito educativo, ou
outras formas de subsídio, se frustrarão os planos de crescimento.
-
O brasileiro aprendeu que educação é importante. Já
faz barulho e reclama. Mas precisa aprender a reclamar melhor, com
mais conhecimento de causa, mais persistência e mais competência.
Educação sempre foi, é e será um assunto político (exceto nas
ditaduras). Se não há demanda, não há oferta. Se não se demanda
qualidade, esta não se materializará.
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