Determinantes da
Atenção
Falamos comumente da Atenção como voluntária ou
involuntária. A primeira refere-se a casos onde o indivíduo parece
ter liberdade na determinação do foco de sua Atenção, liberdade em
escolher intencionalmente aquilo sobre que prestar Atenção.
Entretanto, ao estudarmos a influência da motivação, do interesse e
da afetividade sobre a Atenção essa simples divisão em voluntária e
involuntária ficará mais complicada. De qualquer forma vamos falar
sobre essa divisão.
A Atenção involuntária ou espontânea refere-se a casos em que a
pessoa parece menos o agente de escolha da direção de sua Atenção do
que um joguete nas mãos de forças que a obrigam a atentar para isso
ou aquilo. Numa narração folclórica e acaboclada de um contador de
casos goiano , é cômica a passagem onde diz, diante da censura de
sua mulher por ter olhado demais para outra mulher: "- eu não queria
olhar, mas os olhos queriam...".
Alguns determinantes da Atenção involuntária
estão relacionados ao afeto e sentimento dirigidos para o objeto,
como é o caso da pessoa faminta dirigir sua Atenção,
irresistivelmente, para o alimento da vitrina do restaurante.
Outros determinantes se ligam a características
duradouras dos objetos estimulantes. Essas características
determinantes podem ser tão solicitantes que acabam atraindo
tiranicamente a Atenção, apesar parecer que a pessoa atentou
voluntariamente. As características dos estímulos, que exigem
Atenção, foram muito estudadas por experimentos de laboratório e por
técnicas de propaganda. Esses fatores determinantes do estímulo
podem ser sumariados da seguinte maneira:
DETERMINANTE DE...
EXEMPLO
intensidade ...................................: o silvo da sirene
do carro de bombeiros
repetição ......................................: anúncios na
televisão
isolamento ....................................: uma única palavra,
na página da revista
movimento e mudança..................: o pisca-pisca no cruzamento
da estrada
novidade........................................: o desenho
exagerado do último modelo de carro
incongruência ...............................: a mulher fumando um
charuto
Tenacidade e Vigilância
Já vimos, no capítulo da sensopercepção, que o ato de perceber
consiste na apreensão de uma totalidade e que essa totalidade não
representa uma simples soma do elementos isolados captados pelos
órgãos sensoriais. O todo sensorial caracteriza uma determinada
forma, e esta forma percebida pelos sentidos será qualitativamente
diferente daquilo que representa suas partes isoladas.
Para a Atenção, também, somente uma parte das excitações sensoriais
adquire relevo, dando origem à uma forma sobre a qual se polariza a
Atenção, enquanto as partes restantes representam o fundo, menos
claro, mais difuso e mais fluido. Aqui, tanto quanto na
sensopercepção, não existem quaisquer elementos isolados, mas apenas
fins totais e integrado para alguma realização pessoal, e serão
"claras" e "nítidas" as percepções contidas no foco da Atenção,
"vagas" e "difusas" aquelas que se encontram além desse foco.
O nível da Atenção depende de vários fatores.
Como vimos acima, o principal desses fatores é a ânimo ou o
interesse (em outras palavras, o afeto). Quando nos encontramos
diante de uma variedade de objetos, a Atenção está dispersa e os
diferentes objetos recebem pequenas quantidades de energia e
alcançam um grau médio de Atenção. Mas, ao concentrarmos a Atenção
num único objeto, toda a energia se orienta neste sentido e os
demais objetos ficam numa zona obscura. No entanto, no objeto em que
se concentrou a Atenção se descobre uma infinidade de pormenores que
haviam passado desapercebidos quando este se achava imerso nos
demais. Neste caso a Atenção foi polarizada no objeto escolhido.
Isso significa que dentro do campo da Atenção nem
todos os estímulos recebem a mesma conscientização e energia. Vale
aqui o alvo inicialmente exemplificado: em torno de uma zona central
especialmente iluminada e energicamente acentuada, situam-se zonas
de fraca intensidade.
Quando estamos dirigindo o foco principal da
Atenção deve estar na estrada e no trânsito à nossa volta. Em nível
menos profundo de Atenção estão os acostamentos da estrada, o ruído
do motor, os instrumentos do painel do veículo, etc. De um modo
geral, o campo de visão mais externo, a visão periférica, utiliza a
energia psíquica sem propósito de foco da Atenção, mas apenas como
possibilidade para um eventual foco futuro.
Usando ainda o exemplo de dirigir, há também a
Atenção de espera, quando então procuramos, espreitamos, espiamos ou
exploramos, sem nenhum objeto específico à se focar a Atenção.
Digamos que é uma Atenção para as possibilidades. Nesses casos, o
objeto da Atenção ainda não se acha presente, tudo é indeterminado,
não se conhece o onde, nem o quando do que vai ser percebido. Pode
ser que um cachorro atravesse em nossa frente. Esta expectância e
incerteza exige que a Atenção percorra continuamente um campo mais
amplo para, no caso do objeto aparecer, não o deixar escapar e
colocá-lo imediatamente em foco. Para completar esse exemplo temos
que entender o que é tenacidade e o que é vigilância.
Bleuler destaca duas qualidades na Atenção: a
tenacidade e a vigilância. A tenacidade é a propriedade de manter a
Atenção orientada de modo permanente em determinado sentido. A
vigilância é a possibilidade de desviar a Atenção para um novo
objeto, especialmente para um estímulo do meio exterior. Essas duas
qualidades da Atenção se comportam, geralmente, de maneira
antagônica, ou seja, quanto mais tenacidade sobre um determinado
objeto está se dedicando, menos vigilante estamos em relação à
eventuais estímulos a serem apreendidos.
Cisão da Atenção
É quando os objetos da Atenção opõem-se um ao outro e, por causa
disso, não se pode estabelecer uma unidade.Observação das mais
significativas para a Psicopatologia consiste na noção de "cisão" da
Atenção. Este fato pode ocorrer com relativa freqüência em alguns
transtornos psíquicos, criando sérios problemas para a mente que
deve atender, simultaneamente, a objetivos múltiplos ou extremamente
contraditórios. No caso de "cisão", Nos casos mais acentuados, em
que se manifestam outros sintomas concomitantes, a cisão da Atenção
pode determinar uma verdadeira desintegração da mente. Bateson
propos a hipótese do "duplo-vínculo", aplicável às situações
insolúveis em que se encontram muitos indivíduos no contexto
familiar.
A situação é descrita como aquela em que uma pessoa transmite à
outra duas mensagens afins, porém contraditórias e incompreensíveis,
contendo exigências de natureza oposta, ao mesmo tempo que trata de
impedir que a vítima expresse uma opinião acerca da incoerência.
O paciente se encontra numa situação singular e
insustentável. Não pode adotar nenhuma atitude sem sofrer pressões e
exigências contraditórias vindas, geralmente, de parte de um ou de
ambos os pais. O fato de não saber para que lado deva se "voltar",
para o lado do pai ou da mãe, ocasiona o desmantelamento no interior
de si próprio e, externamente, nas relações interpessoais. Cria-se
uma situação sem saída para os que se encontram a ela vinculados.
Weakland estabeleceu os princípios da situação de
duplo-vínculo criada entre filho-mãe-pai:
1 ) O indivíduo participa de uma relação bastante intensa, isto é,
fazem-no sentir que é vitalmente importante que possa distinguir com
precisão o tipo de mensagem que lhe está sendo comunicada, a fim de
poder responder de forma adequada.
2) O indivíduo está atrapalhado em uma situação em que a outra
pessoa que participa da relação expressa duas formas de mensagens
contraditórias, nas quais uma é a negação da outra.
3) O indivíduo é incapaz de fazer comentários a respeito das
mensagens que se estão expressando, com o fim de corrigir sua
discriminação do tipo de mensagem a que deve responder, isto é, não
pode realizar uma formulação meta-comunicativa".
Esta situação de duplo-vínculo implica,
naturalmente, a "cisão" da Atenção de quem se encontra submetido a
esta situação anômala e termina operando a desintegração de uma
personalidade em evolução e que não alcançou ainda pleno
desenvolvimento.
O começo de um ato de Atenção consiste não só em
dirigir a Atenção para o estímulo sensorial, mas, ao mesmo tempo,
interromper o estado psíquico anterior. Assim começa uma nova
vivência e, se esse processo proporcionava prazer ou não estava
ainda terminado, a interrupção é vivenciada como uma perturbação.
Por isso, admite-se que a dupla Atenção que um jovem deve prestar
aos pais, quando ambos são muito diferentes e expressam opiniões
divergentes, contraditórias e conflitantes, determina, como
conseqüência, uma "cisão" no processo de Atenção, que termina
comprometendo, sobretudo, a parte afetiva da pessoa implicada.
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