Desempenho escolar e autocenceito de alunos atendidos em serviços
psicopedagógicos III
RESULTADOS
Foi
objetivo deste estudo comparar o desempenho escolar, no ano de 2001,
entre alunos que foram atendidos pelo SATPP e alunos de classes de
aceleração. Com relação ao desempenho escolar no 1o. semestre deste
ano, foi disponibilizada a avaliação escolar de apenas 27 alunos,
dentre os 46 que participaram do estudo. Dez professores preferiram
não responder ao instrumento de avaliação. Além disso, nove alunos
foram desligados do SATPP no final do 1o semestre de 2001 (sete
receberam alta do serviço e dois foram encaminhados para atendimento
psicoterápico). Os alunos pertencentes a classes de aceleração foram
utilizados como grupo de comparação. Dentre os 32 alunos
participantes deste estudo, foram disponibilizadas as avaliações de
apenas 18. Uma professora não respondeu ao instrumento de avaliação
de desempenho escolar. Com relação ao 2o semestre de 2001, novamente,
houve uma redução do número de alunos avaliados que freqüentavam o
serviço psicopedagógico, de 27 para 23 alunos, em virtude de um
aluno ter sido transferido para a classe de ensino especial e pela
dificuldade de se contatar os professores dos demais alunos. Também
foi reduzido o número de avaliações de desempenho dos alunos
pertencentes às classes de aceleração. Dos 18 alunos da classe de
aceleração avaliados no semestre anterior, somente 16 foram
reavaliados, tendo em vista que dois alunos abandonaram a escola.
Dos alunos do SATPP avaliados em termos de seu desempenho escolar,
23 tinham avaliações em ambos os semestres. No caso dos alunos das
classes de aceleração, apenas 14 foram avaliados nos dois períodos.
Os
resultados indicaram que não houve diferença significativa entre os
alunos do SATPP e os alunos de CA quanto ao desempenho escolar no
1o. semestre (t [43]=0,90; p=0,37) e nem no 2º semestre (t
[37]=1,06; p=0,30) (veja Tabela 3). Entretanto, o desempenho escolar
dos alunos atendidos no serviço psicopedagógico foi
significativamente superior no 2º semestre quando comparado ao
desempenho no semestre anterior (t[22]=4,13; p=0,0001). Da mesma
forma, foram observados ganhos significativos no desempenho escolar
dos alunos das classes de aceleração no 2º semestre em comparação ao
1º semestre de 2001 (t[13]=4,72; p=0,0001) (veja Tabela 4).

Observa-se que, de modo geral, o desempenho escolar dos alunos das
classes de aceleração foi superior, nos dois semestres, ao dos
alunos atendidos no serviço psicopedagógico, apesar desta diferença
não ter sido considerada estatisticamente significativa. Utilizou-se
o teste t para examinar, ainda, possíveis diferenças entre alunos do
SATPP do gênero masculino e feminino com relação ao autoconceito. Os
resultados indicaram diferenças significativas entre os gêneros
quanto à aceitação social (t[44]=2,30; p=0,03), conduta
comportamental (t[44]=2,14; p=0,04) e autoconceito global
(t[44]=2,34; p=0,02). Os alunos do SATPP do gênero feminino
obtiveram diferenças significativamente superiores com relação aos
alunos do gênero masculino nas três subescalas. Foi constatado,
também, que os alunos do gênero feminino obtiveram médias superiores
em todas as subescalas de autoconceito (veja Tabela 6).

DISCUSSÃO
O
presente estudo comparou o desempenho escolar e autoconceito de
alunos que freqüentam um serviço psicopedagógico e alunos de classes
de aceleração de aprendizagem, a fim de examinar o impacto do
serviço nos alunos atendidos. Não foram observadas diferenças
significativas dos resultados obtidos pelos alunos do SATPP em
comparação aos alunos de CA no ano de 2001. Por outro lado, os
resultados indicaram que osalunos atendidos no SATPP obtiveram
desempenho escolar significativamente superior no segundo semestre
de 2001 quando comparado ao desempenho no 1º semestre. Da mesma
forma, foi constatado ganhos significativos no desempenho escolar
dos alunos das classes de aceleração do 1º para o 2º semestre de
2001.
Pelo
fato deste estudo ter utilizado um delineamento quase-experimental,
não é possível afirmar que a melhora no desempenho escolar dos
alunos do SATPP ocorreu em função, exclusivamente, da sua
participação em um serviço de atendimento especializado. Além disso,
os alunos não expostos ao serviço (alunos das classes de aceleração)
também conseguiram bons resultados escolares.
É
interessante notar que muitos professores relataram, na primeira
fase da coleta de dados referente ao desempenho escolar, que
determinados alunos eram muito fracos e estavam propensos a repetir
o ano. Porém, na segunda fase da coleta, mudaram totalmente seus
relatos ao transmitirem com entusiasmo os ganhos obtidos pelos
alunos no segundo semestre, tanto em relação ao seu desempenho
acadêmico, como, também, em relação ao seu comportamento. Isto nos
leva a questionar acerca do que teria contribuído para que os alunos
apresentassem ganhos com relação ao desempenho escolar e os
professores mudassem sua avaliação dos alunos? Cabe ressaltar que as
notas atribuídas ao desempenho escolar dos alunos, de certa forma,
partiram de critérios subjetivos, onde o professor avaliou o aluno
por meio de considerações sobre o seu rendimento e comportamento em
sala de aula, salvo algumas exceções, que se basearam somente em
avaliações bimestrais das disciplinas oferecidas no currículo.
Os
resultados deste estudo indicaram, ainda, que não foram observadas
diferenças significativas entre alunos do SATPP e alunos de CA com
relação ao autoconceito. Entretanto, é interessante mencionar que
estas crianças consideradas alunos com problemas de aprendizagem
apresentaram um autoconceito positivo. Em nenhuma das subescalas
aplicadas, os alunos apresentaram média abaixo do ponto médio da
escala. Resultados semelhantes foram encontrados por Souza (1996) ao
examinar o autoconceito de crianças com dificuldades de aprendizagem.
Esta autora concluiu que apesar do fato das crianças apresentarem
dificuldades no seu processo de aprendizagem, isto não influenciava
negativamente no seu autoconceito.
Entretanto, outros estudos, que também investigaram a relação entre
autoconceito e rendimento acadêmico, encontraram resultados
contrários a estes. Silva e Alencar (1984), por exemplo, encontraram
uma correlação positiva entre estas duas variáveis. Também Peixoto e
Mesquita (1990) perceberam que alunos com resultados acadêmicos
superiores possuíam um autoconceito alto, ao passo que alunos com
várias reprovações apresentaram um autoconceito baixo. Estes autores
perceberam que à medida que os resultados acadêmicos dos alunos
decresciam, ocorria o mesmo com relação ao autoconceito. Da mesma
forma, os resultados do estudo de Estevão e Almeida (1999) indicaram
diferenças significativas no autoconceito dos alunos com escores
altos de rendimento acadêmico em comparação aos alunos com
desempenho acadêmico inferior.
É
importante lembrar que, apesar dos dois grupos serem compostos por
alunos com dificuldade de aprendizagem, eles apresentavam
características diferenciadas. Os alunos de CA, por exemplo, eram
mais velhos, pertenciam a turmas mais homogêneas com relação aos
problemas escolares, os professores recebiam apoio metodológico e
pedagógico específico e o trabalho era supervisionado e acompanhado
por uma assessoria técnica do programa.
Este
estudo verificou a importância do Serviço de Atendimento
Psicopedagógico e do Programa de Aceleração da Aprendizagem
oferecido pela Secretaria de Educação do Distrito Federal no
enfrentamento dos problemas escolares apresentados por muitos alunos
do ensino fundamental, seja no caso daqueles que apresentam
dificuldades de aprendizagem ou no caso daqueles que se encontram em
defasagem de idade e série. Verificou-se que ambos os trabalhos têm
contribuído, de certa forma, para melhoria do desempenho escolar dos
alunos, bem como para o fortalecimento do seu autoconceito.
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1 Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília.
2Ph.D. Psicologia Educacional. Professora do Departamento
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Psicologia da Universidade de Brasília
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