Desempenho escolar e autocenceito de alunos atendidos em serviços
psicopedagógicos II
MÉTODO
Delineamento
Um
delineamento quase-experimental (Gall, Borg & Gall, 1996) foi
utilizado para responder à questão de pesquisa.
Participantes
Alunos do SATPP. Participaram deste estudo 46 alunos (31 do
gênero masculino e 15 do feminino), com idade média de 13 anos,
variando entre 11 e de 16 anos. Todos os alunos eram atendidos por
equipes do Serviço de Atendimento Psicopedagógico (SATPP), da
Secretaria de Educação do Distrito Federal, distribuídas em três
Gerências Regionais de Ensino. A maioria dos alunos (83%), estudava
em turmas de 4ª série do ensino fundamental e os 17% restantes
estudavam nas classes de aceleração (CA), envolvendo 32 escolas da
rede pública do DF. Houve maior concentração de alunos (83%) no
turno matutino. Cerca de 54,3% dos alunos já tinham sido reprovados
pelo menos uma vez em umas das séries do ensino fundamental. A maior
parte dos alunos era proveniente de famílias de classe média-baixa,
considerando-se como critério o nível de escolaridade e profissão
dos pais (veja Tabela 1).

A queixa
mais freqüente para o encaminhamento dos alunos com dificuldade de
aprendizagem ao SATPP fazia referência ao desenvolvimento cognitivo
do aluno, seguido pelos aspectos emocional, social e psicomotor
(veja Tabela 2). Dos prontuários que constavam à data de ingresso do
aluno no SATPP, cerca de (70%) dos alunos tinham ingressado no ano
de 2000/2001, isto é, tinham um tempo médio de um ano e meio de
permanência no atendimento.

Alunos das classes de Aceleração. Integraram, ainda, a amostra
de alunos, um grupo composto de trinta e dois alunos, sendo 11 do
gênero masculino e 21 do feminino, matriculados nas classes de
aceleração da aprendizagem em nível de 4ª série. A faixa etária dos
participantes era de 11 a 15 anos e a idade média de 13 anos. De
modo geral, os alunos eram provenientes de famílias de nível
socioeconômico baixo. 56,2% dos alunos estudavam no turno matutino e
43,8% no turno vespertino. A participação destes alunos no estudo
devese as características de desempenho escolar semelhantes aos
alunos que freqüentam o SATPP, ambas crianças, apresentam
dificuldade de aprendizagem, e na maioria das vezes, possuem em seu
histórico escolar, reprovação ou desnível entre série e idade,
caracterizada como insucesso escolar.
Instrumentos
Perfil de Autopercepção para Crianças. Esta escala foi
desenvolvida para avaliar o julgamento da criança sobre sua
competência em domínios específicos e de maneira global (Harter,
1985). Este instrumento contém seis subescalas que envolvem cinco
domínios específicos: competência escolar, aceitação social,
competência atlética, aparência física, conduta comportamental e a
auto-estima global.
A
subescala competência escolar explora a percepção da criança sobre
sua competência ou habilidade relacionada ao seu desempenho escolar.
Um exemplo de item desta subescala é “Algumas crianças acham que
fazem muito bem o trabalho escolar, mas outras crianças se preocupam
se elas vão dar conta de fazer o trabalho escolar”. A subescala
aceitação social avalia a extensão em que as crianças se percebem
como populares ou aceitas pelos pares. Um exemplo de item desta
subescala é “Algumas crianças têm muitos amigos, mas outras crianças
não têm tantos amigos”. A subescala competência atlética investiga
conteúdos envolvendo habilidades esportivas. Um item desta subescala
é “Algumas crianças se saem muito bem em qualquer tipo de esportes,
mas outras crianças sentem que não são tão boas em se tratando de
esportes”. Os itens da subescala aparência física avaliam o grau em
que cada criança está satisfeita com sua forma física. A título de
ilustração, segue um exemplo de item desta subescala: “Algumas
crianças desejariam que seu corpo fosse diferente, mas outras
crianças gostam de seu corpo do jeito que ele é”. A subescala
conduta comportamental investiga o grau em que a criança se comporta
e age da forma que ela supõe que deva agir a fim de evitar
problemas. Um exemplo de item é “Algumas crianças se comportam muito
bem, mas outras crianças geralmente acham difícil se comportar bem”.
Os itens da subescala auto-estima global dizem respeito a extensão
em que a criança gosta de si mesma como pessoa, se está feliz com
seu modo de vida e se é feliz. Um item desta subescala é “Algumas
crianças gostam do tipo de pessoa que elas são, mas outras crianças
muitas vezes gostariam de ser outra pessoa”. Cada subescala contém
seis itens. Cada item inclui duas sentenças opostas descrevendo
características de uma criança. A criança é instruída a decidir qual
o tipo de criança é mais parecida com ela, e em seguida é solicitada
a indicar se sua resposta se aplica mais ou menos ou totalmente a
ela. Cada item é avaliado em uma escala de 1 a 4, onde o escore 1
indica percepção negativa de sua competência enquanto que o escore 4
indica uma percepção positiva de sua competência. Cada escala
apresenta um escore final, obtido por meio da soma de pontos dos
itens que compõem a escala (Harter, 1985). Marsh e Gouvernet (1989)
apresentam evidência de validade de construto para esta escala.
Análises fatoriais indicaram que as cargas de fatores variaram de
0,32 a 0,75. Da mesma forma, análises de multitraçosmultimétodos
indicaram evidência de validade convergente para este instrumento.
Análise Documental. Foram analisados a ficha de encaminhamento,
a ficha de anamnese e o relatório psicopedagógico dos alunos, com o
objetivo de identificar os principais motivos pelos quais eles foram
encaminhados para o SATPP, delinear o perfil desta clientela e
identificar o diagnóstico e prognóstico construído, acerca do
problema do aluno. A ficha de encaminhamento é um instrumento
preenchido pelo professor onde são levantadas às dificuldades de
aprendizagem apresentadas pelo aluno e os comportamentos
evidenciados por ele em sala de aula, que justifiquem a necessidade
de um atendimento especializado pelo serviço de apoio
psicopedagógico. A ficha de anamnese contém dados relativos à
história de vida da criança, relatada pelos pais e/ou responsáveis
no momento da primeira entrevista realizada pela equipe de
atendimento. O relatório psicopedagógico é um instrumento elaborado
pelos profissionais da equipe de atendimento durante o processo
diagnóstico do aluno, onde são definidas as intervenções e
recomendações por parte destes especialistas.
Avaliação de Desempenho Acadêmico. Para avaliar o desempenho
escolar dos alunos, solicitou-se ao professor regente, que
utilizando uma escala de 0 a 100, desse uma nota ao aluno que
representasse o seu aproveitamento global na escola, em dois
momentos (1º e 2º semestre de 2001). Optou-se por não utilizar o
Relatório Descritivo e Individual de Acompanhamento Bimestral do
Desenvolvimento de Habilidades, procedimento adotado pelas escolas
públicas do DF para avaliação dos alunos, por se tratar de um
material que está impregnado de impressões muito subjetivas do
professor acerca do processo de aprendizagem do aluno.
Procedimentos
Para a
realização deste estudo solicitou-se, em janeiro de 2001,
autorização da Subsecretaria de Educação Pública do Distrito
Federal, para coleta de dados junto às equipes do Serviço de
Atendimento Psicopedagógico e escolas públicas. As equipes foram
selecionadas observando-se dois critérios: o número de alunos
atendidos matriculados na 4ª série do Ensino Fundamental e a
formação completa da equipe com psicólogo e pedagogo. Os primeiros
contatos com as equipes foram para apresentação dos objetivos do
estudo e verificação do interesse, por parte da equipe, em
participar do mesmo. Foram então, selecionadas 10 equipes. Uma carta
foi enviada aos pais e/ou responsáveis dos alunos, solicitando a
autorização para a participação dos mesmos neste estudo.
Ainda no
início do ano de 2001, foi realizado um estudo piloto em duas turmas
de 4ª série do ensino fundamental de uma escola particular de
Brasília com o objetivo de verificar a adequação do instrumento
Perfil de Autopercepção para Crianças (Harter, 1985) para alunos
desta faixa etária. De modo geral, a maioria das crianças soube
responder satisfatoriamente ao mesmo. O estudo piloto examinou,
ainda, se a linguagem utilizada no instrumento era adequada em uma
amostra de crianças brasileiras e serviu como treino para a sua
posterior aplicação.
Durante
os meses de maio, junho e início de julho de 2001, foi aplicado o
instrumento Perfil de Autopercepção para Crianças em todos os
alunos. O momento de aplicação variou de acordo com a sugestão de
cada equipe. Em sete equipes, a aplicação foi realizada, nos dias e
horários das sessões de atendimento; em duas equipes, determinou-se
o dia destinado às reuniões de pais e professores para a aplicação
do instrumento às crianças; e em uma única equipe, utilizou-se o
momento de chegada e saída das crianças ao atendimento. A aplicação
ocorreu, geralmente, em pequenos grupos e, em poucos casos,
individualmente. No caso das crianças que faltaram às sessões, houve
necessidade de aplicar o instrumento nas escolas onde elas estudavam.
O tempo gasto para a aplicação do questionário variou de 20 a 30
minutos, seguindo a forma de aplicação sugerida pelo manual.
Concomitante à aplicação deste instrumento, procedeu-se à análise
dos prontuários, sendo consultadas as fichas de encaminhamento e de
anamnese e o relatório psicopedagógico dos alunos.
Com a
finalidade de se estabelecer um parâmetro de comparação com relação
aos escores da medida de autoconceito apresentados pelas crianças
atendidas no SATPP, foram selecionadas três classes de aceleração da
aprendizagem em nível de 4ª série do ensino fundamental das mesmas
gerências regionais de ensino do SATPP, cujos alunos atuaram como
grupo de controle. Estabeleceu-se, então, contato com os diretores e
coordenadores pedagógicos para a apresentação dos objetivos e
relevância do estudo. Em seguida, conversou-se com os professores
das classes de aceleração para verificar o interesse em participar e
obter informações sobre as características da turma. Os pais dos
alunos pertencentes às estas classes foram consultados através de
carta. Aos alunos autorizados pelos pais, era explicado o objetivo
do estudo e como deveria ser respondido o instrumento, Perfil de
Autopercepção para Crianças, deixando-os à vontade em querer ou
não participar. Os alunos que não foram autorizados ou não quiseram
responder ao instrumento permaneceram na sala de aula fazendo outra
atividade ou deixaram a sala juntamente com a professora, durante o
tempo gasto para aplicação, que não ultrapassou 30 minutos.
Para
obtenção da avaliação de desempenho escolar dos alunos, a
pesquisadora dirigiu-se, nos meses de agosto, setembro e início de
outubro de 2001, às escolas dos alunos atendidos no SATPP e das
classes de aceleração. Após apresentar, por escrito, aos professores
os objetivos do estudo e solicitar sua colaboração, pediu-se dos
mesmos que avaliassem o desempenho acadêmico dos alunos no primeiro
semestre de 2001, de acordo com uma escala de 0 a 100. Quando não
era possível encontrar pessoalmente com o professor, a carta
explicativa e instruções para proceder à avaliação dos alunos, eram
encaminhadas a ele pelo orientador educacional ou coordenador
pedagógico. As avaliações eram, então, recolhidas posteriormente. As
avaliações relativas ao segundo semestre de 2001 foram realizadas
por telefone no final do mês de dezembro.
Análise dos Dados
Os dados
quantitativos relativos à questão de pesquisa foram analisados por
meio do teste t. A variável independente foi grupo (alunos atendidos
no SATPP e alunos de classe de aceleração) e as variáveis
dependentes foram autoconceito, medido pelo Perfil de Autopercepção
para Crianças, e desempenho escolar, definido pela avaliação do
professor. Requisitos necessários para realização das análises como
normalidade, linearidade e homogeneidade de variância, foram
examinados. O programa estatístico SPSS foi usado para a realização
das análises.
Desempenho
escolar e autocenceito de alunos atendidos em serviços
psicopedagógicos III
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