Autoconceito e desempenho de universitários na disciplina
estatística
The
self-concept and university achievement in statistics
Marjorie Cristina Rocha Da Silva1;
Claudette Maria Medeiros Vendramini2
Universidade São Francisco
RESUMO
Este
trabalho objetivou avaliar o autoconceito de universitários em
disciplinas de Estatística, e sua relação com o curso, turno,
semestre, idade e gênero. Responderam um questionário de
identificação e uma escala de autoconceito 116 estudantes de
Psicologia e 32 de Pedagogia, com idades de 18 a 65 anos, 86%
mulheres e 58% do noturno. A escala do tipo Thurstone com 21 itens
permitiu classificar o autoconceito em rebaixado, adequado e
elevado. Observou-se que 67% dos participantes possuem um
autoconceito adequado. Os principais resultados permitem afirmar que
há correlação positiva entre autoconceito e desempenho na disciplina
estatística, embora não se saiba o quanto o autoconceito elevado
contribuiu para um melhor desempenho do aluno. As limitações deste
estudo sugerem a realização de outros sobre esse construto no âmbito
acadêmico.
Palavras-chave: Desempenho acadêmico, Psicologia educacional,
Estatística.
ABSTRACT
This
study aimed to assess the university students’ self-concept in
statistics course and its relation to academic area, period,
semester, age and gender of the sample. An identification
questionnaire and a self-concept scale were answered by 116
Psychology students and 32 Pedagogy students. The sample consisted
of eighteen to sixty-five year-old, 86% female and 58% evening
period students. The Thurstone scale with 21 items allowed
classifying in low, appropriated and high self-concept. The analysis
showed appropriated self-concept in 67% of participants. The
principal results have revealed that there is positive correlation
between self-concept and achievement in statistics course. On the
other hand, it is not possible to state how the high self-concept
contributed to a better student’s achievement. The limitations of
this study suggested other studies related to this construct in the
academic area of research.
Keywords: Academic achievement, Educational psychology,
Statistics.
INTRODUÇÃO
Entre as
variáveis que influenciam o ensino-aprendizagem podem ser citadas as
habilidades básicas, como compreensão e leitura, raciocínio lógico,
entre outras, todas necessárias a um bom desempenho do aluno. Além
desta, é preciso também que os alunos universitários tenham atitudes
positivas em relação às disciplinas que irão cursar. Entre os
fatores que podem influenciar o desempenho acadêmico dos alunos
podem ser citados, o autoconceito, auto-eficácia, auto-estima e as
atitudes (Vendramini, 2000).
Para
Teixeira e Giacomini (2002), é preciso esclarecer algumas
divergências conceituais entre autoconceito, auto-estima e auto-eficácia.
A auto-estima é um construto que se refere à avaliação que o
indivíduo faz de si mesmo (em termos de gostar ou sentir-se
satisfeito consigo). A auto-eficácia representa o julgamento que uma
pessoa tem da sua capacidade de planejar e executar tarefas
específicas em uma situação determinada. O autoconceito está
relacionado à idéia de uma autodescrição mais ampla, que inclui
aspectos comportamentais (o que a pessoa faz ou é capaz de fazer),
cognitivos (como ela se descreve) e afetivos (como se sente a seu
respeito).essa forma, a autoeficácia, assim como a auto-estima, são
construtos mais restritos e mais específicos que o autoconceito. O
autoconceito incorpora além de crenças percebidas sobre a
competência individual em situações específicas, crenças de valor
sobre si mesmo, sendo uma avaliação mais global e menos dependente
do contexto do que a auto-eficácia.
Na
investigação teórica a respeito do autoconceito observa-se a não
existência de uma definição operacional clara e universalmente
aceita, devido à discordância dos diversos autores quanto às
definições e terminologias empregadas. Mas, de forma geral, há uma
certa concordância entre vários pesquisadores que definem o
autoconceito como sendo, basicamente, a maneira como o indivíduo se
percebe, ou seja, qual o conhecimento que ele tem de si (Marsh,
1984; Marsh, Byrne & Shavelson, 1988; Stevanato & Loureiro, 2000).
Villa
Sanchez e Murachco (1999) definem o autoconceito como o conjunto de
atitudes que um indivíduo tem para consigo mesmo e que é composto
por elementos cognitivos, afetivos e comportamentais. Estes
componentes têm influência decisiva na maneira como cada um percebe
os acontecimentos, os objetos e as outras pessoas em seu meio
ambiente. Trata-se da estima, de sentimentos e atitudes que o
indivíduo desenvolve sobre si mesmo, de forma que o autoconceito
desempenha um papel central no psiquismo e na personalidade.
Para
Corona (1999), a teoria do autoconceito se baseia em dois
pressupostos básicos: todo indivíduo é capaz de formar seu
autoconceito; e este, se molda à medida que novas experiências são
incorporadas. Há uma re-elaboração contínua provocada pelos
ajustamentos que o indivíduo vai fazendo no conceito que tem de si
mesmo. Assim, as pessoas passam a vida a se redescobrirem e há
sempre aspectos novos não percebidos antes, mesmo para aquelas
pessoas que supõem já terem estruturado definitivamente seu
autoconceito.
Para
essa mesma autora, embora a capacidade para se elaborar o
autoconceito seja inata, esse é moldado pelas experiências diárias
no meio social. Os sucessos e fracassos que o indivíduo têm ao longo
de sua vida constroem uma imagem pessoal que pode ser modificada no
decorrer dos anos. Quando o ambiente é estável, tendem a ser
estáveis os autoconceitos elaborados, porém, à medida que novas
experiências se acrescentam, modifica-se o repertório de respostas;
verificando-se uma tendência à estruturação de novos autoconceitos,
ou modificação dos já adquiridos. Desta forma, o autoconceito
reflete papéis e status sociais que o indivíduo ocupa. Costa (2002)
destaca que a mensuração do autoconceito não deve visar a busca pela
verdade absoluta do indivíduo, mas a verdade que ele percebe, tendo
como base suas percepções fundamentais sobre si mesmo e sobre a
maneira como estas são vivenciadas.
Devido à
multiplicidade de conceitos encontrados na literatura, nesse estudo
foi adotada a definição de Pajares e Miller (1994) que considera o
autoconceito como um conjunto de crenças de autovalorização,
associadas à competência percebida de um sujeito. Dessa forma, o
autoconceito pode ser entendido como a atitude valorativa que um
indivíduo tem sobre si mesmo e o quanto ele se sente capaz de
realizar alguma tarefa.
A partir
da definição adotada é possível conceber o autoconceito como um
construto multidimensional que se refere à percepção da pessoa em
termos tanto acadêmicos quanto não acadêmicos (Shavelson, Hubner &
Stanton, 1976; Shavelson & Bolus, 1982; Byrne, 1984; Byrne & Worth
Gavin, 1996; Bong & Clark, 1999). Considerando o contexto acadêmico,
o autoconceito recorre à percepção de uma pessoa em relação a sua
realização na escola. E, se considerada uma área de conhecimento, o
autoconceito refere-se à percepção do indivíduo em relação a esta
área.
Embora
não haja uma definição precisa do que seja o autoconceito acadêmico,
o modelo proposto por Shavelson, Hubner e Stanton (1976) é comumente
utilizado para explicar esse construto. Assim, em alguns casos, como
quando referente a uma área de conhecimento como a matemática ou a
estatística, o autoconceito tem sido estudado tanto a partir de uma
perspectiva descritiva (“Eu gosto de matemática”) como em aspectos
avaliativos de sua percepção (“Eu sou bom em matemática”); sendo que
no último caso a percepção estaria mais focada na competência do
indivíduo como estudante.
De forma
geral, o autoconceito acadêmico pode ser definido como o universo de
representações que o estudante tem das suas capacidades, das suas
realizações escolares, bem como as avaliações que ele faz dessas
mesmas capacidades e realizações. Em particular, o autoconceito
matemático e o estatístico se referem à percepção ou convicção da
habilidade em fazer bem matemática ou estatística, além de sua
confiança em aprender a matéria (Wilkins, 2004).
O estudo
do autoconceito acadêmico, e em especial, a sua relação com o
desempenho, tem sido crescente devido à importância dada a esse
construto na dinâmica das relações que ocorrem no ambiente escolar (Marsh,
1990a, 1990b, 1992; House, 1993a, 1993b, 1996; Gigliotti & Gigliotti,
1998; Elbaum & Vaughn, 2001; Guay, Marsh & Boivin, 2003; Coplan,
Findlay & Nelson, 2004). O estudo de Kurtz-Costes e Schneider (1994)
pode ser citado para exemplificar as pesquisas comumente realizadas
entre esses construtos. Esses autores examinaram, por meio de uma
análise longitudinal, as relações entre autoconceito acadêmico e
desempenho, verificando se estas relações seriam mediadas pelas
atribuições de causalidade das crianças quanto ao próprio desempenho.
Participaram desse estudo 46 alunos com idade de oito e dez anos,
avaliados nas disciplinas de Matemática e Língua Alemã. Para a
coleta de dados, foi utilizado um questionário de atribuições que
constava de oito situações hipotéticas, sendo quatro de sucesso e
quatro de fracasso, nas quais os alunos eram solicitados a inferir
as causas destes eventos. O autoconceito foi avaliado por meio de um
teste no qual os alunos eram solicitados a se compararem com os
colegas de classe, com relação a várias atividades. Além disso,
foram coletadas as notas escolares dos alunos em Matemática e Língua
Alemã. A comparação feita entre as respostas das crianças nas duas
aplicações possibilitou verificar que aos dez anos as crianças
atribuíram sucesso mais ao esforço e menos à dificuldade da tarefa.
Em contraste, as avaliações de autoconceito mostraram-se mais
consistentes nessa idade. Conforme previsto, as atribuições de
sucesso das crianças estiveram positivamente correlacionadas ao
autoconceito e ao desempenho.
Convém
também citar um estudo internacional de investigação sobre o
autoconceito matemático e de ciências realizado por Wilkins (2004)
envolvendo 290.000 estudantes de 41 países com idade acima de 13
anos. Esse autor buscou relacionar o autoconceito matemático e de
ciências com o desempenho nas provas dessas matérias, além das
possíveis associações entre gênero e idade. Os achados mostraram uma
relação positiva entre desempenho e autoconceito nos países
investigados, porém sugere-se que sejam feitas pesquisas adicionais
para investigar o quanto às diferenças culturais entre os países
podem influenciar no autoconceito individual.
No geral,
as pesquisas citadas apontam para uma relação positiva entre o
desempenho escolar e o autoconceito, de forma que quanto mais
elevado o autoconceito do aluno, maior é a probabilidade desse ter
um bom desempenho na escola. Nesse estudo tem-se a preocupação em
compreender como se relacionam esses construtos no que diz respeito
ao ensino-aprendizagem da disciplina Estatística.
É
essencial investigar alguns fatores subjacentes ao desempenho
acadêmico, visto que, segundo Gal e Ginsburg (1994), os problemas de
ordem afetiva na aprendizagem, e em específico, da Estatística, tais
como sentimentos, atitudes, crenças, expectativas, interesses e
motivação, se negativos, podem dificultar a aprendizagem da
disciplina ou retardar o desenvolvimento da habilidade Estatística e
do seu potencial de aplicação no campo profissional. De acordo com
Vendramini (2000), no âmbito acadêmico universitário, a Estatística
é uma disciplina que gera insegurança e medo nos alunos.
Pensando
na importância dessa disciplina nas várias áreas de conhecimento e
na necessidade de compreender alguns fatores que possam interferir
no ensinoaprendizagem de tal matéria, o presente estudo tem como
objetivo avaliar o autoconceito de universitários em relação à
disciplina Estatística, buscando se há associação com o curso,
turno, semestre, idade e gênero dos participantes.
MÉTODO
Participantes
O
presente estudo contou com a participação de 148 alunos do segundo
ao décimo semestre, sendo 116 do curso de Psicologia e 32 do curso
de Pedagogia, ingressantes de 1998 a 2004. A idade dos estudantes
variou de 18 a 65 anos, com média 25 anos e desvio padrão 8,36. A
maioria pertencente ao gênero feminino (85,8%) e ao período noturno
(58,1%).
Instrumentos
Questionário de Identificação (Brito, 2000)
As
informações pessoais contidas no questionário de identificação foram
selecionadas de forma a fornecer subsídios para uma melhor análise e
compreensão dos dados, tais como: gênero, curso, média na disciplina
Estatística, ano de ingresso, série que está cursando, reprovações
na disciplina de Estatística. Escala de autoconceito estatístico
A
escala de autoconceito estatístico
é uma
modificação da escala de Pajares e Miller (1994) originalmente
desenvolvida e validada nos Estados Unidos, e posteriormente
traduzida e adaptada por Brito (2000). Num estudo preliminar com 397
estudantes de escolas públicas, de ambos os gêneros, com idade
variando de oito a quinze anos observou-se que o instrumento possui
uma boa consistência interna (alpha de Cronbach=0,90). Essa
escala original foi criada para medir o autoconceito matemático, e
para fins dessa pesquisa, foi modificada a palavra Matemática para
Estatística e promovida adaptações necessárias para o melhor
entendimento dos itens que compõem os instrumentos.
A escala
contém 21 itens do tipo Thurstone, variando de totalmente falsa (1
ponto) a totalmente verdadeira (8 pontos). A pontuação total na
escala pode variar de 21 a 168 pontos com ponto médio igual a 94,5,
sendo que o autoconceito pode ser classificado em: rebaixado,
adequado e elevado. As proposições da escala versam sobre
autoconceito estatístico, por exemplo: Em comparação com os
colegas de minha classe, eu sou bom em Estatística. Há também
itens que versam sobre atitudes, como Eu acho a Estatística
interessante.
Procedimento
Após
aprovação da pesquisa pelo Comitê de Ética da Universidade e
autorização dos responsáveis pelos cursos selecionados, os
participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa e
solicitados a lerem e assinarem o termo de consentimento livre e
esclarecido.
A Escala
de Autoconceito Acadêmico em Estatística foi aplicada em grupo para
aqueles que aceitaram participar da pesquisa. O aplicador instruiu
os alunos quanto ao modo de preenchimento do questionário de
identificação e da escala. O tempo médio da aplicação foi de 15
minutos.
Autoconceito
e desempenho de universitários na disciplina estatística II
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