ATENÇÃO E MEMÓRIA
Uma maneira importante pela qual a percepção se
torna consciente é através da Atenção que, em essência, é a
focalização consciente e específica sobre alguns aspectos ou algumas
partes da realidade. Assim sendo, nossa consciência pode,
voluntariamente ou espontaneamente, privilegiar um determinado
conteúdo e determinar a inibição de outros conteúdos vividos
simultaneamente. Portanto, reconhece-se a Atenção como um fenômeno
de tensão, de esforço, de concentração, de interesse e de
focalização da consciência.
Atenção pode sofrer alterações em todos os
transtornos mentais e emocionais. Mesmo quando não existam
alterações psíquicas tão evidentes, como é o caso da ansiedade
simples, a Atenção pode apresentar oscilações. Uma série de fatores
intra-psíquicos pode modificar a sua eficácia da Atenção mesmo
dentro dos limites da normalidade.
Vários estados emocionais podem alterar a capacidade de Atenção, ora
alterando sua intensidade, ora alterando sua tenacidade ou sua
vigilância. Sob a influência de determinados alimentos, de bebidas
alcoólicas e de substâncias farmacológicas, a Atenção também pode
experimentar alterações em seu rendimento e em sua eficiência.
A Memória, no sentido estrito, pode ser entendida
como a soma de todas as lembranças existentes na consciência, bem
como as aptidões que determinam a extensão e a precisão dessas
lembranças . De modo geral a Memória necessita de duas funções
neuropsiquícas fundamentais; a capacidade de fixação, que é a função
responsável pelo acréscimo de novas impressões à consciência e
graças à qual é possível adquirir novo material mnemônico, e a
capacidade de evocação, ou reprodução, pela qual os traços mnêmicos
são revividos e colocados à disposição livremente da consciência.
A Atenção pode ser entendida como uma atitude
psicológica através da qual concentramos a nossa atividade psíquica
sobre um estímulo específico, seja este estímulo uma sensação, uma
percepção, representação, afeto ou desejo, a fim de elaborar os
conceitos e o raciocínio. Portanto, de modo geral a Atenção parece
criar a própria consciência.
Alguns autores consideram a Memória em si, um
processo puramente fisiológico, enquanto a fixação e a evocação
mnêmicas das lembranças seriam atos psíquicos e vividos pelo
indivíduo.
Para que uma lembrança seja eficaz é
indispensável a compreensão do objeto sobre o qual se polariza a
Atenção, condição essa que depende da afetividade e do interesse.
Kraepelin já afirmava a lembrança poderia persistir por mais tempo
quanto mais claramente (mais compreensivamente) se percebia o
estímulo original e quanto mais numerosas e intensas fossem suas
ligações com o resto do conteúdo da consciência. Portanto, as
lembranças perduram por mais tempo quanto mais são reforçadas pela
repetição.
A Memória como Parte Importante da Consciência
Para estudar os mecanismos da memória é didático fazer analogia com
o mecanismo dos computadores. Tal como os os computadores, nossa
mente está equipada com dois tipos básicos de memória: "a memória
imedita" (de trabalho) para tratar a informação do presente momento,
e a memória de longo prazo, usada para arquivar durante longo tempo.
Ao contrário do que se pode pensar, nosso cérebro não está
continuadamente registando tudo que nos acontece para, num segundo
momento, selecionar e apagar o que não é importante. A maior parte
dos estímulos com os quais estamos lidando permanece por um
brevemente tempo na memória, mais precisamente, na memória imediata
ou de trabalho. A analogia que se faz com o computador é com a
chamada memória RAM, ou seja, com a memória de acesso aleatório da
máquina (Random Access Memory).
Depois de algum tempo esses estímulos trabalhados pela memória
imediata se evaporam dando lugar à outros. A memória imediata nos
permite realizar os cálculos de cabeça, permite reter números de
telefone durante algum tempo, permite continuar um diálogo baseado
no início da conversa, permite saber o nome do interlocutor durante
algum tempo (diretamente proporcional à importância deste para nós).
Continuando nossa analogia, podemos dizer que a memória de longo
prazo seria como o disco rígido do computador, registando
fisicamente as experiências passadas na região do cérebro designada
córtex cerebral. A córtex, ou a camada exterior do cérebro, contém
aproximadamente dez bilhões de células nervosas, as quais se
comunicam intensamente trocando impulsos eléctricos e químicos.
Sempre que um estímulo atinge nossa consciência, seja uma imagem,
som, ideia, sensação, etc., ativa-se um conjunto destes neurônios,
modernamente chamado de "assembléia neuronal". A teoria baseada nas
assembléias neuronais representa um modelo muito convincente para a
formulação de uma hipótese a respeito da construção da consciência.
Segundo essa teoria, o pensamento consciente é gerado quando vários
neurônios de diversas colunas se unem funcionalmente e, atuando
harmonicamente e em conjunto, constroem uma assembléia, iniciando
assim a formação de um determinado estado consciente. Depois desse
novo estado de consciência esses neurônios do conjunto que
participou do estímulo nem sempre retomam o estado original. Eles
costumam fortalecer as ligações uns com os outros, tornando-se mais
densamente interligados.
Quando isso acontece constroi-se uma memória consciente, e o que
quer que estimule essa rede ou assembléia trará de volta a percepção
inicial sob a forma de recordação. O que entendemos como recordações
são, afinal, padrões de ligação entre células nervosas. Uma
recordação recém-codificada pode envolver milhares de neurónios
abarcando todo o córtex.
Segundo a teoria dos conjuntos de células envolvidas na consciência
e memória, os neurônios são capazes de se associarem rapidamente,
formando grupos (assembléias) funcionais para realizarem uma
determinada tarefa ou apreenderem um determinado estímulo. Uma vez
que esta tarefa esteja terminada, o grupo se dissolve e os neurônios
estão novamente aptos a se engajarem em outras assembléias, para
cumprirem uma nova tarefa . Portanto, esse conjunto, rede ou
assembléia de neurônios dilue-se, caso não seja reutilizada, mas, se
a ativarmos repetidamente, o padrão de ligações incorpora-se cada
vez mais nos padrões de nossos tecidos nervosos.
É devido a essa organização e dissolução dinâmica das assembléias
neuronais que podemos comparar a atividade mnêmica fugaz com a
memória RAM do computador. Há, ainda, um aspecto quantitativo acerca
dessa assembléia neuronal, segundo a qual, quanto maior o número de
neurônios recrutados, maior será o tamanho dessa assembléia e, em
conseqüência, maior será a recém criada consciência ou memória, em
termos de intensidade e tempo de duração. Contrariamente, se for
pequeno o número de neurônios recrutados, a memória resultante será
pequena em intensidade e duração.
Os estímulos são registrados na memória de longo prazo mediante
repetição ou através de sua carga afetiva. Enquanto a decisão de
armazenar ou diluir uma informação possa ser voluntária, a eficácia
dessa memorização nem sempre depende de nossa vontade. Quem garante
a eficácia da memória, indiretamente da consciência que se tem do
vivido, é um atributo automático do hipocampo.
O hipocampo é uma pequena estrutura bilobular alojada profundamente
no centro do cérebro. Tal como o teclado do nosso computador, o
hipocampo é como uma espécie de posto de comando. À medida que os
neurónios do córtex recebem informação sensorial, transmitem-na ao
hipocampo. Somente após a resposta do hipocampo é que os neurónios
sensoriais começam a formar uma rede durável (assembléia). Sem o
"consentimento" do hipocampo a experiência desvanece-se para sempre.
É aqui que entra a carga afetiva necessária para que o estímulo se
fixe na memória de longo prazo. A atitude de "consentimento" do
hipocampo parece depender de duas questões. Primeiro, a informação
tem algum significado emocional, portanto, tem que ter alguma
importância afetiva. O nome de uma pessoa muito atraente tem mais
probabilidade de conseguir "autorização" do hipocampo para se fixar
no "disco rígido" de nosso computador do que o nome do jornalita que
escreve o obituário do jornal. É assim que nossa consciência se
constrói, sempre em conformidade com nossos próprios interesses
emotivos.
A segunda atitude do hipocampo é uma imediata analogia, ele avalia é
se a informação que está chegando no cérebro tem relação com alguma
coisa que já esteve por ai, ou que já sabemos. Ao contrário do
computador, que armazena separadamente os factos relacionados, o
cérebro procura constantemente fazer associações. Se o estímulo
recém chegado tem alguma relação ou correspondência com algum
material já armazenado, esse novo fato terá mais facilidade de
agregar-se ao dinamismo psíquico. Em suma, usamos as assembléias
elaboradas pela experiência passada para captar novas informações.
Através da formação continuada de assembléias neuronais os fenômenos
conscientes se sucederiam, continuamente, cada um diferindo dos
demais em duração e intensidade, de acordo com o tamanho das
assembléias. Esse dinamismo faz com que a substituição de uma
vivência consciente pela que se segue seja muito rápida, conferindo
à consciência seu aspecto de continuidade. Aqui devemos lembrar que,
também continuadamente, o hipocampo vai selecionando o que fica na
memória de longo prazo e o que pertence apenas à memória imediata.
De qualquer forma forma-se uma assembléia neuronal e, numa ínfima
fração de tempo, a consciência da vivência se formaria. Essa
consciência seria recém formada a partir da mobilização simultânea
de um determinado número de neurônios por um período de tempo
variável e, imediatamente depois de terminada sua função, seria
substituída por outra assembléia (consciência), depois por outra e,
sucessivamente outras.
Esses arranjos neuronais obedecem uma estrutura muito pessoal que,
em seu conjunto, acabam por corresponder (ou contribuir para) ao
perfil afetivo e sensibilidade de cada um e, quem sabe até, para a
vocação de cada um. É por isso que um mesmo quadro pode impressionar
diferentemente as várias pessoas que o observam; alguns se
sensibilizam com as tonalidades, outros com o tema, outros até com a
combinação quadro-moldura, outros só conseguem memorizar o preço e
assim por diante. Podemos constatar essa experiência facilmente
retirando o quadro da vista das pessoas e pedindo para elas
descreverem o que viram: ... cores fortes.... tema triste.... muito
grande.... deve valer muito... e assim por diante.
Assim sendo, as condições capazes de perturbar o hipocampo acabam
por prejudicar a memória e, conseqüentemente, a integração da
consciência. A doença de Alzheimer destrói gradualmente esse órgão,
portanto, destrói a capacidade para formar novas memórias. O
envelhecimento normal também pode causar danos mais sutis. Alguns
estudos sugerem que a massa encefálica decresce, a grosso modo e
variavelmente, de cinco a dez por cento a cada dez anos.
Exceto em casos mais patológicos, como por exemplo na doença de
Alzheimer ou nos problemas vasculares, a idade por si só parece não
perturbar a nossa memória significativamente. A idade, quando muito,
torna as pessoas um pouco mais lentas e menos precisas e, embora as
médias apontem para o declínio com a idade, alguns octogenários
continuam mais incisivos e rápidos que os adolescentes.
Evidentemente existem circunstâncias clínicas capazes de prejudicar
o rendimento da memória ao longo dos anos. A pressão sanguínea
elevada cronicamente pode prejudicar a função mental. Alguns estudos
constatam que ao longo dos anos, as pessoas hipertensas perdem duas
vezes mais capacidade cognitiva que aqueles que apresentam tensão
sanguínea normal. Também o excesso de álcool ou o funcionamento
deficiente da glândula tiróide, assim como a depressão, a ansiedade
e a simples falta de estímulo estão associados ao prejuízo da
memória.
Volver al Indice de Artículos