Ana Maria Di Grado Hessel (PUC-SP)
Flávio Sapucaia (PUC-SP)
Mônica Gardelli Franco (PUC-SP)
Roberto Sussumu Wataya (PUC-SP)
RESUMO
Este artigo aborda questões importantes sobre aprendizagem na
sociedade do conhecimento, na qual a velocidade da informação
adquire destaque, e a relação destes aspectos com a formação do
educador. Estabelece uma relação entre aprendizagem e
conhecimento, buscando no significado do aprender a compreensão
para os atuais conceitos relativos a importância de uma
aprendizagem continuada ao longo da vida. Aponta também de que
maneira o uso da tecnologia pode contribuir para uma
aprendizagem continuada na formação de educadores. Palavras
chave: aprendizagem, aprendizagem continuada ao longo da vida,
professores, educação, tecnologia.
Qual o conceito de aprendizagem nos dias de hoje? Como a
aprendizagem está ocorrendo na sociedade do conhecimento? O que
significa aprender em uma sociedade em que a informação se
altera a uma velocidade difícil de acompanhar? Qual é a relação
da educação e da aprendizagem nessa nossa realidade? Os
educadores estão preparados para atuarem neste novo contexto?
Essas são questões difíceis de responder sem uma reflexão a
respeito da contextualização da educação atual, isto é, as
pessoas, o tempo (história) e espaço de envolvimento que a nova
era propõe. Em busca de respostas para as questões levantadas,
realiza-se este trabalho com o objetivo observar como a
tecnologia pode ser instrumento útil na formação de professores.
Para tanto, faz um levantamento das definições sobre o que é
aprender (tempo/história) e contextualiza-o nos dias atuais
(tempo/espaço).
1. O aprender: suas definições e sua história.
Se fizermos um mergulho na história da evolução humana, em busca
dos significados de aprender, certamente juntaremos muitas
informações numa considerável lista, pois, em cada época, em
cada contexto, encontraremos um sentido e uma compreensão
diferente, essencialmente cultural. Segundo a definição do
dicionário Aurélio (1995) aprender significa tomar conhecimento
de; reter na memória mediante o estudo, a observação ou a
experiência; tornar-se apto ou capaz de alguma coisa. Nota-se
que o vocábulo aprender traz acepções que devem ser
compreendidas à luz da cultura moderna. Conhecimento, memória e
estudo são expressões que evocam as linhas de pensamento e
teorias de aprendizagem vigentes ou em uso nas agências
educacionais. Atualmente, o senso comum afirma que precisamos da
escola para aprender. Por esta ótica, seria razoável dizer que
os homens da caverna, que não tinham um agente educativo e
tampouco necessitavam dele, não aprendiam. Se assim fosse como
sobreviveriam e teriam sido os precursores da hominização?
A luta pela sobrevivência explica o homem como um ser
cultural aprendente, que conhece, que transforma e domina o seu
meio, em busca de melhores condições de vida. As pesquisas
arqueológicas comprovam tal afirmação, na medida em que
reconhece como conhecimento humano os signos talhados na
natureza. Por meio dessa representação de sua história, o homem
primitivo desenvolve a memória como capacidade vital para manter
e transmitir o conhecimento. A partir da escrita, um instrumento
valioso para o registro da cultura, a relação do homem com o
conhecimento modificou-se. Passou da oralidade para a escrita,
mantendo ainda o importante papel da memória humana. A tradição
de copiar, repetir, memorizar e reproduzir no ato da
aprendizagem esteve presente nas culturas egípcia e grega, na
prática dos religiosos detentores da informação na idade média e
dentro das escolas modernas e contemporâneas, sobrevivendo até
os nossos dias.
Essa concepção histórica de armazenamento de conhecimento e o
valor dado à memória são responsáveis pela concepção tradicional
de que aprender é adquirir conhecimento por meio da recepção de
informação. Se alguém recebe é porque alguém transmite. Alguém
ensina, deixa um sinal ou marca e alguém aprende numa relação
hierarquizada de professor e aluno. Alguns produzem conhecimento
e outros consomem. A idéia é de que o conhecimento vem de fora e
os sujeitos o incorporam. A hipótese que suporta essa concepção
empirista do conhecimento é a de que o saber está fora do
sujeito, no objeto, e cabe a ele captá-lo. Algumas pesquisas,
apontadas por Becker (2000), mostram que o empirismo é a forma
que mais amplamente caracterizou e ainda caracteriza a
epistemologia do professor. A memória, sob essa ótica, tem um
papel importante, sendo reconhecida como um arquivo que acumula
informações vindas do exterior e aprendizagem mostra-se
relacionada à capacidade de memorização. Surge e se concretiza,
daí, a idéia de transmissão de conhecimento.
Paulo Freire (2000) faz críticas a essa prática transmissora,
chamando-a de educação bancária, cuja característica ou função
principal, na sua visão, é apassivar ou domesticar o educando.
Paradoxalmente a visão empirista da educação, surgem estudos
sobre a aprendizagem com enfoque construtivistas e
interacionistas. Tais estudos do processo cognitivo tomaram
impulso, aliando as questões sobre as relações entre
aprendizagem e conhecimento. O seu interesse dirigia-se aos
problemas epistemológicos da formação das grandes estruturas do
conhecimento, das categorias que nos permitem organizar o
conhecimento da realidade. Confrontando-se as correntes
empiristas com as correntes aprioristas, o construtivismo surge
como resultado dessa alquimia e acaba sendo entendido como uma
concepção educacional, apesar de ter um enfoque puramente
epistemológico e psicológico. Quase como um modismo os
educadores passaram a se “rotular” construtivistas, ao procurar
inovações e tentar mudar suas posturas em sala de aula. Por
falta de compreensão de que as explicações construtivistas sobre
a formação do conhecimento não podem traduzir-se diretamente
para o terreno da prática educacional, há relatos de muitas
práticas equivocadas (Delval, 2001). Apesar disto, no campo
educacional, o construtivismo representa uma possibilidade de
superar a prática, amplamente criticada, da transmissão de
conhecimentos. A proposta trata da construção do conhecimento
pelo sujeito da aprendizagem. A aprendizagem não procede só do
sujeito, nem só do objeto, mas da interação de ambos e deve ser
significativa para o aprendiz. O conhecimento não é mais dado
como algo pronto e terminado e sim resultado da interação entre
o sujeito e a realidade que o cerca. É uma construção,
primeiramente individual, e posteriormente compartilhada.
Atualmente, o conhecimento sobre o ato de aprender,
enriquecido pelos estudos interdisciplinares das ciências
cognitivas, permite o entendimento de que o homem, para se
manter vivo, realiza inúmeras aprendizagens
2. O aprender na sociedade do conhecimento
Estamos vivendo em um período de grandes mudanças que podem ser
percebidas por três aspectos importantes: as facilidades de se
adquirir informação, a multiplicação e a diversificação das
formas de saber e conhecer e a demanda por uma educação contínua
e eficiente, características que fazem com que a atual sociedade
da informação se torne cada vez mais dependente do conhecimento.
O acesso fácil à informação possibilita que cada um possa
construir o seu próprio conhecimento que por sua vez deixa de
ser monopólio exclusivo da escola e passa a estar disponível a
todos. Os avanços tecnológicos, que possibilitaram uma
aceleração dos processos comunicacionais, fazem surgir uma certa
obsolescência do conhecimento. Por esta condição, novos ritmos e
dimensões são impostos à tarefa de ensinar e aprender. É preciso
que se esteja em permanente estado de aprendizagem e de
adaptação ao novo. A multiplicidade e diversificação das formas
de conhecer são favorecidas pela falta da obrigatoriedade de
deslocamentos físicos até às instituições tradicionais de ensino
para aprender. Escolas virtuais oferecem vários tipos de
ensinamentos on-line. A partir desta nova realidade, supõe-se
que não exista mais a possibilidade de se considerar a pessoa
totalmente formada, pois o ciclo do conhecimento que há alguns
anos era de mais de 30 anos, atualmente não passa de dez.
Os conhecimentos devem ser aprendidos para que a sociedade
continue caminhando em direção aos avanços e o indivíduo deve
estar sempre atualizado, aprendendo constantemente para que
possa acompanhar a velocidade de transformação da sociedade
atual. Surge, portanto, a necessidade de uma educação contínua,
eficiente e que prepare o indivíduo para as mudanças impostas
pela sociedade. É o que os estudiosos da modernidade chamam life
long learning.
2.1- Life long learning
Aprender ao longo da vida seria a tradução literal dessa
expressão. J. A. Valente (2001) discorda, não da expressão, mas
de como está sendo empregada uma vez que os cursos que se dizem
life long learning não preparam o indivíduo para aprender a vida
toda. Não desenvolvem nele a percepção de como aprendem para que
possam recorrer as estratégias, circunstâncias ou recursos, toda
vez que desejem aprender algo. Valente (2001), para elucidar tal
questão, faz uma distinção entre os períodos de aprendizagem
observados na concepção tradicional e os observados na concepção
atual de life long learning. Para a concepção tradicional
aprendemos de maneira lúdica na primeira infância, por meio de
nosso desejo natural por aprender, e de maneira sistematizada no
período escolar, nos ensinamentos em que atuamos como receptores
passivos. Nessa visão, paramos de aprender no período após
escolarização. Tal colocação vem sendo questionada por muitos
educadores e estudiosos, entre eles: Pozzo, Emília Ferreiro e
Valente. Esses pesquisadores nos colocam que a aprendizagem é
contínua e permanente, ou seja, aprende-se o tempo todo, desde o
primeiro minuto de nossas vidas em todas as direções e dimensões.
Sob este ponto de vista e apropriando-se de alguns conceitos de
P. Lévy (1995), pode-se pensar em aprendizagem como uma maneira
hipertextual de conhecer. A medida em que se é submetido a um
estímulo desencadeia-se na mente uma série de relações com
outros estímulos. A mente, sendo hipertextual estabelece
diferentes conexões com o já conhecido, o que permite que neste
movimento se construa o próprio conhecimento. Cada um tem a sua
rede de aprendizagem própria.
Para aprender é necessário algum nível de abstração que
permita que se possa estabelecer as relações com o que já se
aprendeu, e que se possa resgatar o já aprendido para uma
utilização prática. A definição de life long learning se
aproxima deste conceito expandido de aprendizagem. Por está
ótica, a escola será um entre os muitos ambientes de
possibilidades de aquisição de conhecimento, além de conter
muitos ambientes em seu interior. Além disso, se o propósito é
permitir ao indivíduo que aprenda durante toda a vida, é
importante que a sociedade assuma essa característica de
ambiente de aprendizagem e, portanto ofereça recursos e
mecanismos para que os indivíduos possam satisfazer o desejo de
aprender pelo uso da predisposição de aprendizagem que
demonstram ter desde os primeiros minutos de vida.(Valente:
2001) Assman (1998:40) defende que a aprendizagem é uma
necessidade vital, e acrescenta que a característica de
corporeidade da aprendizagem implica em modificação de um
sistema inteiro, pois a aprendizagem consiste numa cadeia
complexa de saltos qualitativos da auto-organização neuronal da
corporeidade viva, cuja clausura operacional (leia-se: organismo
individual) se auto organiza enquanto se mantém numa acoplagem
estrutural com seu meio. Kelso (in Assman: ibid, 40) afirma que
a aprendizagem modifica o sistema inteiro: No atual estado das
pesquisas, ninguém sabe exatamente o que acontece num sistema
complexo como o cérebro humano quando ocorre a aprendizagem
(...) No atual momento, as observações que dispomos nos dizem
unicamente que, quando as pessoas acabam de aprender algo,
sucedeu uma mudança global em seu cérebro.(...) a aprendizagem
não modifica apenas uma coisa, ela modifica todo o sistema. Essa
idéia corresponde à teoria biológica de H. Maturana e de F.
Varela(1995) em que aprender é uma necessidade dos organismos
vivos. Para estes autores a aprendizagem não é apenas uma
adaptação do indivíduo ao meio, mas sim o desenvolvimento de
experiências, caracterizando-se por envolver o acoplamento
estrutural entre meio e indivíduo. Neste sentido, indivíduo e
meio são flexíveis às mudanças estruturais mutuamente. O
aprender está relacionado diretamente às mudanças estruturais do
indivíduo, que na terminologia dos autores é considerado uma
unidade autopoiética1 que interage com o meio em que se encontra.
Neste caso, o indivíduo não é separado do meio, e ambos, por
meio de uma dinâmica interacional, mudam sempre juntos. Para
Maturana (1999) o organismo aprendeu porque mudou a sua conduta
em relação ao momento anterior, de uma maneira contingente a sua
história de interações recorrentes (apud. Moraes:2000) A
aprendizagem não é um processo individual, mas mútuo. Os autores
afirmam que, por ser uma organização autopoiética, o que se
passa com o indivíduo é determinado pelo próprio indivíduo,
portanto, para esta teoria, não é aceitável o caráter
instrucionista, pois não é o meio que especifica as mudanças
estruturais do organismo, e sim o indivíduo que seleciona apenas
o que deseja aprender.
Estas novas teorias apontam para uma reorganização dos
processos de aprendizagem. Essa interação do indivíduo com o
meio, o viver/conviver, é 1 Autopoiése: significa autocriação,
autoconstrução. A teoria de Maturana e Varela considera que a
conservação de um sistema vivo, estruturalmente determinado no
meio onde existe, é condição sine qua non de sua existência.
Para eles “um sistema dinâmico, determinado estruturalmente,
existe somente enquanto sua dinâmica estrutura aconteça com a
conservação de sua organização” (1998:35). Os seres vivos são
unidades autopoiéticas. Ver mais em “A árvore do conhecimento”.(1995)
caracterizada por uma coordenação de ações consensuais,
constituídas por fluxos de emoções. Desta forma, a emoção
adquire papel fundamental neste processo de aprender. Paulo
Freire (1996) afirma que é no dialogo amoroso com os outros e
com o mundo que aprendemos, é nas circunstâncias que nos
formamos e transformamos. A partir de todos os aspectos
apontados, percebemos que life long learning é o processo que já
seguimos, pois o aprender é uma necessidade vital/ biológica
para mantermo-nos como unidades autopoiéticas, porque nossos
sentidos não são apenas janelas, mas interlocutores com o
mundo.(Assman:1998:37)
3. As novas tecnologias e a formação de educadores
Favoráveis ou não, é chegado o momento no qual profissionais da
educação, que têm o conhecimento e a informação como matérias
primas de seu trabalho, enfrentem os desafios oriundos das novas
tecnologias. Para tanto, a formação do professor hoje depende do
entendimento dessa nova concepção de aprendizagem. À luz das
teorias, apontadas anteriormente, este professor deve ser
compreendido como um indivíduo que está em um constante
aprender. Não é possível pensar em uma reformulação da sua
prática docente para a incorporação destes recursos, sem pensar
na sua pessoa e em sua formação que ocorre não apenas durante o
seu percurso nos cursos de formação de professores, mas
permanentemente durante todo o seu caminho profissional e
pessoal, dentro e fora da sala de aula. Para uma grande parte
dos professores a expressão novas tecnologias está associada ao
uso das mídias eletrônicas, televisão, vídeo e do computador em
sala de aula. O trabalho com este último, pelo desconhecimento
da lógica do seu funcionamento, mostra-se um desafio a ser
vencido./p>
O professor hoje, numa formação mediada pelo recurso
tecnológico, se vê diante de uma realidade para qual ele não
teve e não tem formação. É preciso que este profissional tenha
tempo e oportunidades de familiarização com as novas tecnologias
educativas, suas possibilidades e limites para que, na prática,
faça escolhas conscientes sobre o uso das formas mais adequadas
ao ensino de um determinado tipo de conhecimento, em um
determinado nível de complexidade, para um grupo específico de
alunos e no tempo disponível. A primeira reação que este
professor tem é de usar a tecnologia como um adorno para suas
práticas tradicionais e corre o risco de cair no tecnicismo. A
diferença didática não está no uso ou não uso das novas
tecnologias, mas na compreensão das suas possibilidades. Mais
ainda, na compreensão da lógica que permeia a movimentação entre
os saberes no atual estágio da sociedade tecnológica que ao lado
do saber científico, do saber pedagógico, seja oferecido ao
professor a capacidade de ser agente, produtor, operador e
crítico das novas tecnologias educativas. O domínio das novas
tecnologias educativas pelos professores pode lhes garantir a
segurança para, com conhecimento de causa, sobrepor-se às
imposições sóciopolíticas das invasões tecnológicas
indiscriminadas às salas de aula.
Esse enfrentamento não significa a adesão incondicional ou a
oposição radical ao recurso tecnológico, mas conhecê-lo
criticamente, e reconhecê-lo como uma ferramenta útil à prática
pedagógica. Criticamente, os professores vão poder aceitá-las ou
rejeitá-las em suas práticas docentes, tirando o melhor proveito
dessas ferramentas para auxiliar o ensino no momento adequado.
Antes de tudo a esse professor devem ser dadas oportunidades de
conhecimento e de reflexão sobre sua identidade pessoal como
profissional docente, seus estilos e seus anseios e uma formação
que o leve a refletir sobre suas práticas.
Considerações finais
As tecnologias precisam ser compreendidas a partir de um
movimento de mudança de cultura, representada pela pós-modernidade.
Aos professores, é necessária uma reorientação da sua carga
horária de trabalho para incluir o tempo em que pesquisam as
melhores formas interativas de desenvolver as atividades fazendo
uso dos recursos multimediáticos disponíveis.
Deve-se incluir um outro tempo para a discussão de novos
caminhos e possibilidades de exploração desses recursos com os
demais professores e técnicos da área para que todos possam:
refletir sobre todos os encaminhamentos realizados, partilhar
experiências e assumir a fragmentação das informações, como um
momento didático significativo para a recriação e emancipação
dos saberes. O desafio da inserção das novas tecnologias é
verificar a nova forma de aprender, mas é também, o desafio de
incorporar nas práticas educacionais uma nova concepção de
conhecimento, de informação e de sabedoria, para que o educador
não se perca dentro da expansão descontrolada do saber, pois tal
expansão proporciona a diversidade de linguagens prejudicando a
construção do objeto do saber.
(Morin: 2000,16)
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