Alteração da Memória II
Tipos de Amnésia
Paramnésias
Os distúrbios da qualidade da memória de evocação denominam-se, de
modo geral, paramnesias. Estudam-se neste grupo as seguintes
alterações:
1) ilusões mnêmicas;
2) alucinações mnêmicas;
3) fabulações;
4) fenômeno do já visto;
5) criptomnesia;
6) ecmnesia.
Ilusões Mnêmicas
Tratam-se, as Ilusõs Mnêmicas de verdadeiras lembranças fictícias,
ou seja, a recordação vívida de alguma coisa irreal. Nesses casos
haveria um acréscimo de elementos falsos na consciência, os quais
resultariam em lembranças fantásticas como, por exemplo, ter
existido antes do universo, ter vivido 10 mil anos, ser mãe de
dezenas de filhos, ter participado da queda da Bastilha ou da Guerra
de Tróia e assim por diante. São algo diferente dos delírios devido
ao fato da pessoa poder descrever minuciosamente as cenas vividas,
algo como um acontecimento oniróide.
As Ilusõs Mnêmicas são a forma mais freqüente de
paramnesia e desempenham importante papel na psicopatologia,
principalmente na sintomatologia psicótica. Segundo Bleuler, as
Ilusõs Mnêmicas constituiriam o principal material para elaboração
dos delírios. Bleuler inclui nas Ilusõs Mnêmicas as lembranças
imprecisas também observadas no alcoolismo agudo e crônico, nos
orgânicos e nos epilépticos.
Entre as Ilusõs Mnêmicas se incluem os falsos
reconhecimentos, observados em psicóticos quando, muitas vezes,
insistem em identificar o médico ou a enfermeira como uma pessoa de
sua família, a quem até atribuem algum nome de sua familiaridade.
Nesses casos não se trata de alteração da percepção e sim de
formação da Ilusõs Mnêmicas, que leva o paciente a identificar uma
pessoa desconhecida com a lembrança de alguém familiar.
Alucinações Mnêmicas
Alucinações Mnêmicas são criações imaginativas com aparência de
reminiscências e lembranças, porém, não correspondem a nenhuma
imagem de épocas passadas. Nos psicóticos surgem, freqüentemente,
lembranças reais de vivências irreais que podem atribuir uma
história de vida completamente diferente. São lembranças que não
correspondem a nenhum acontecimento vivido.
Pacientes pré-demenciais ou demenciais podem
apresentar essas Aucinações Mnêmicas como cenas acontecidas
recentemente. Uma nossa paciente em início de demenciação insistia
que um antigo namorado vinha quase todas as noites visitá-la de
carruagem. Descrevia a cena com detalhes minuciosos.
Não se trata de realização de sonhos nem tampouco
de alucinação dos sentidos, pois muitos dos acontecimentos são
situados no tempo em que o indivíduo normalmente se ocupava do seu
cotidiano. Em outros casos, as alucinações da memória são menos
sistematizadas e constam apenas de particularidades isoladas.
Fabulações
A Fabulação consiste no relato de temas fantásticos que, na
realidade, nunca aconteceram. Em grande parte, resultam de uma
alteração da fixação e de uma incapacidade para reconhecer como
falsas as imagens produzidas pela fantasia. O conteúdo das
fabulações, como bem salientou Lange, procede do curso habitual da
vida anterior, acontecendo muitas vezes que, achando-se perturbada a
capacidade de localizá-las no tempo, lembranças isoladas autênticas
completam erroneamente as lacunas da memória. Nos casos em que
existem alterações dos conceitos e desorganização da vida
instintiva, pode-se observar a produção rica de conteúdos
fabulatórios absurdos e inverosímeis, que, habitualmente, adquirem
um aspecto oniróide. Em outros casos, certas imagens oníricas são
rememoradas e atualizadas como lembranças autênticas.
Enquanto as Fabulações preenchem um vazio da memória e se mostram
como que criadas para este fim, podendo variar de tema e conteúdo,
as Alucinações Mnêmicas não mudam, tal como uma idéia delirante. No
sentido mais particular, a Fabulação é, nos estados em que não há
delírio, um sintoma de comprometimento orgânico.
Psicopatologia
Vejamos agora como pode se apresentar a Atenção e a Memória em
alguns estados psíquicos mais encontradiços.
Transtorno Afetivo Bipolar
Nos período de euforia do Transtorno Afetivo Bipolar, a Atenção se
caracteriza por uma exagerada distraibilidade devido a
hiper-vigilância e hipo-tenacidade, portanto, trata-se daquilo que
vimos aqui chamar-se Hiperprosexia. Como a Atenção é muito
superficial e dispersa, detendo-se nos estímulos ambientais, o
paciente tem grande dificuldade para concentrar a Atenção em
determinado objeto. Nas fases de leve excitação maníaca, ou nos
estados hipomaníacos, os doentes percebem rapidamente tudo o que
ocorre em torno de sua pessoa, inclusive o que carece de
significação, entretanto, a Atenção só consegue manter-se em cada
objeto durante um breve tempo, voltando-se novamente para novas
impressões.
Por outro lado, nos estados de depressão há
lentidão e dificuldade de concentrar a Atenção devido à
hipo-vigilância e à hipo-tenacidade, ou seja Hipoprosexia. Em alguns
pacientes, porém, pode haver aumento da tenacidade da Atenção sobre
seus próprios pensamentos de teor negativo e depressivo. Nesses
casos haveria super-tenacidade e sub-vigilância: dificilmente o
enfermo desvia a Atenção da idéia ou do objeto a que se refere o seu
estado mental.
Quanto à Memória nos estados maníacos, sua
evocação está, via de regra, exaltada. Diante da menor solicitação
da consciência o eufórico tende a reviver uma sucessão ininterrupta
de idéias e de imagens mnêmicas. Entretanto, as ligações entre as
idéias é fraca e fragmentada.
As combinações dos conceitos e dos juízos se
fazem de maneira acidental na euforia e, na maioria das vezes,
estabelecem-se relações secundárias e aleatórias, de acordo com
assonâncias, rimas e jogo de palavras. As idéias se sucedem sem
direção, ao acaso das circunstâncias psicológicas. A Memória das
lembranças afluem à consciência em sucessão torrencial e pode
remontar à tempos muito pregressos.
O pensamento do eufórico é extremamente dinâmico,
instável, salta sem transição de uma idéia a outra (fuga de idéias),
as evocações se fazem ao acaso. Os atos intencionais estão todos
nivelados para cima, têm igual interesse de ânimo e se atualizam com
o mesmo grau de consciência. Mundo exterior, impressões sensoriais,
imagens verbais, motoras, tudo se encontra sob o mesmo plano, tudo é
vivido com igual intensidade.
Afetivamente as tendências anteriormente
reprimidas dos pacientes em crises de euforia tendem a liberação,
favorecendo a emotividade e a expansividade exagerada. Os estados
afetivos comandam o encadeamento veloz das representações mnêmicas e
estas provocam juízos que se expressam eloqüentemente. A Memória
exaltada proporciona freqüentes retornos de lembranças agradáveis,
suscita pensamentos otimistas, projetos de vida sem uma ordenação
adequada. À medida que a excitação maníaca aumenta de intensidade, a
hiperevocação automática da Memória cresce de modo progressivo.
Com o evoluir do quadro, apesar da
pseudo-hiperprodução mental do eufórico, a evocação eloqüente e
automática da Memória, por mais rica e fiel que seja, não serve mais
para nada, pois o doente não mais a controla, não escolhe nada de
prioritário entre as evocações tumultuosas e as representações
incoerentes não podem mais dirigir a atividade no sentido de uma via
razoável, prática e objetiva.
Em muitos casos de excitação maníaca observa-se
hipermnesia, caracterizada pela revivescência acentuada de
lembranças, que fluem à consciência do enfermo em verdadeira
avalanche mas, ao contrário de um enriquecimento da Memória, como
poderia parecer, há sim um verdadeiro tumulto e uma real desordem da
Memória.
Alguns poucos casos o paciente maníaco está
incapacitado para relembrar os fatos vividos durante a agitação e,
dessa forma, passa a apresentar uma amnésia total ou parcial
relativa à fase de agitação maníaca.
Alteração da
Memória III
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