O presente estudo é parte de um projeto de pesquisa
desenvolvido por um grupo de pesquisadores do grupo de pesquisa
Alfabetização Leitura Escrita – ALLE – da Faculdade de Educação da
Unicamp. Tal projeto tem como objeto à questão das dimensões
afetivas identificadas no trabalho pedagógico, desenvolvido em sala
de aula, envolvendo o professor, os alunos e os diversos objetos do
conhecimento (conteúdos escolares). Baseando-se nos pressupostos da
abordagem históricocultural, assume-se que as relações que se
estabelecem entre o sujeito (aluno) e os objetos do conhecimento (conteúdos
escolares) são, marcadamente, afetivas, sendo que sua qualidade (aversiva
ou prazerosa) depende, no mesmo sentido, do processo de mediação
vivenciado pelo aluno, em sala de aula – onde se destaca o trabalho
pedagógico do professor (Wallon, 1968; 1989; Vygotsky, 1998).
A priori, o objetivo era analisar as dimensões
afetivas identificadas nas práticas pedagógicas desenvolvidas por
professores em sala de aula. A partir de dados sobre a história de
vida de jovens universitários, pretendia-se identificar as
experiências afetivamente marcantes, em função do trabalho
pedagógico de professores considerados inesquecíveis, e suas
possíveis implicações na futura relação que se estabeleceu entre o
aluno e os diversos conteúdos escolares.
No entanto, quando se iniciou a coleta de dados, um
dos primeiros jovens entrevistados referiu-se ao trabalho de um
determinado professor, o qual será aqui chamado de Professor M,
relatando a grande influência que o mesmo teve em sua vida. Uma vez
que se tinha acesso a outros jovens, que igualmente passaram pela
mesma experiência escolar, decidiu-se centrar o olhar no processo de
mediação desenvolvido pelo referido professor, na relação entre seus
ex-alunos e os conteúdos da disciplina de Língua Portuguesa, que
lecionava.
Assim, o foco da pesquisa centrou-se nas práticas
pedagógicas desenvolvidas pelo professor em sala de aula e as
possíveis conseqüências afetivas das mesmas, na relação que se
estabeleceu entre seus ex-alunos e os conteúdos da disciplina que
ministrava. Trata-se de uma pesquisa descritiva, com metodologia
qualitativa e escolha intencional de sujeitos. Os dados correspondem
a relatos orais, coletados por meio de entrevistas individualizadas.
Afetividade na Relação Sujeito-Objeto
A abordagem histórico-cultural, que apresenta uma
leitura das dimensões cognitivas e afetivas no ser humano,
defendendo uma visão em que pensamento e sentimento integram-se.
Essa abordagem enfatiza os determinantes culturais, históricos e
sociais da condição humana, permitindo pressupor, segundo Luria
(1979) que ‘a grande maioria dos conhecimentos e habilidades do
homem se forma por meio da assimilação da experiência de toda a
humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível
no processo de aprendizagem’. (p. 73). Isso implica assumir que a
aprendizagem é social e mediada por elementos culturais. Tal
concepção produz profundas modificações na visão de educação,
principalmente no que se refere às práticas pedagógicas
desenvolvidas em sala de aula.
Este trabalho tem como pressupostos as idéias acima
descritas, enfatizando que a relação sujeito-objeto é marcada pelo
entrelaçamento dos aspectos cognitivos e afetivos. Ou seja, a futura
relação que se estabelece entre o aluno e o objeto do conhecimento
(no caso, os conteúdos escolares) não é somente cognitiva, mas
também afetiva. Isso mostra a importância das práticas pedagógicas
desenvolvidas pelo professor, pois as mesmas estarão mediando a
relação que se estabelece entre o aluno e os diversos objetos do
conhecimento envolvidos. Pode-se assumir, portanto, que o sucesso da
aprendizagem dependerá, em grande parte, da qualidade dessa mediação.
No presente trabalho, utilizaram- se contribuições teóricas de
alguns autores da referida abordagem histórico-cultural, em especial
Wallon (1968; 1989) e Vygotsky (1998).
Henry Wallon dedicou grande parte da sua vida
estudando e tentando demonstrar as relações existentes entre as
dimensões afetivas, cognitivas e motoras no desenvolvimento humano.
O autor diferencia os termos afetividade e emoção, que muitas vezes
são utilizados como sinônimos. As emoções, para Wallon (1968; 1989),
são reações organizadas que se manifestam sob o comando do sistema
nervoso central. Para o autor, as emoções são estados subjetivos,
mas com componentes orgânicos, sendo, portanto, sempre acompanhadas
de alterações biológicas como aceleração dos batimentos cardíacos,
mudanças no ritmo da respiração, secura na boca, mudança na resposta
galvânica da pele, dentre outras. Freqüentemente, também provocam
alterações na mímica facial, na postura e na topografia dos gestos.
Restringindo o olhar a um recém-nascido, observamse
movimentos que expressam disposições orgânicas e estados afetivos de
bem-estar ou mal-estar. Ao vivenciar situações como desconforto,
fome, frio ou cólica, o bebê expressa-se por meio de espasmos,
contorções ou gritos. As pessoas que fazem parte do seu meio social
interpretam essas reações, mudando-o de posição, dando de mamar ou
soltando-lhe as roupas, atribuindo-lhes um significado. Isso
possibilita que o bebê estabeleça correspondência entre os seus atos
e os do ambiente, promovendo reações cada vez mais diversificadas e
intencionais. Desse modo, Galvão (1995) expõe que ‘pela ação do
outro, o movimento deixa de ser somente espasmo ou descargas
impulsivas e passa a expressão, afetividade exteriorizada’. (p. 61).
Assim, para Wallon (1968; 1989), as primeiras reações do recém-nascido
são de natureza emocional.
A afetividade, por sua vez, tem uma concepção mais
ampla e complexa, envolvendo uma gama maior de manifestações,
englobando sentimentos (de origem psicológica), além da emoção (origem
biológica). Ela aparece num período mais tardio na evolução da
criança, quando surgem os elementos simbólicos. Segundo Wallon
(1968; 1989), com o surgimento desses elementos simbólicos, acontece
a transformação das emoções em sentimentos. Durante o
desenvolvimento ocorre um processo de “complexificação” das emoções,
principalmente a partir da apropriação dos sistemas simbólicos
presentes na cultura, dentre os quais se destaca a linguagem oral.
Defende que, no decorrer de todo o desenvolvimento
do indivíduo, a emoção e a afetividade têm um papel fundamental. Têm
a função de comunicação nos primeiros meses de vida,
manifestando-se, basicamente, por impulsos emocionais, estabelecendo
os primeiros contatos da criança com o mundo. Por meio desta
interação com o ambiente social, a criança passa de um estado de
total sincretismo para um progressivo processo de diferenciação,
onde a afetividade está presente, permeando a construção da
identidade. Da mesma forma, é ainda por meio da afetividade que o
indivíduo acessa o mundo simbólico, originando a atividade cognitiva
e possibilitando o seu avanço, pois são os desejos, intenções e
motivos que vão mobilizar a criança na seleção de atividades e
objetos.
Em sua psicogênese, Wallon (1968; 1989) divide o
desenvolvimento humano em etapas sucessivas, nas quais há
predominância alternada, ora da afetividade, ora da cognição. Em
todas essas etapas, existe o entrelaçamento dos aspectos afetivos e
cognitivos, sendo que as conquistas no plano afetivo são utilizadas
no plano cognitivo, e vice-versa.
Vygotsky (1998), por sua vez, destaca o importante
papel das interações sociais para o desenvolvimento, a partir da
inserção do sujeito na cultura. Essa inserção acontece por meio das
interações sociais com as pessoas significativas que estão no
ambiente da criança.
Ao caracterizar as interações sociais, Vygotsky
(1998) introduz um conceito fundamental para a aprendizagem- a
mediação. Para Oliveira (1997) ‘a mediação, em termos genéricos, é o
processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação’.
(p. 26). Isso permite afirmar que a relação estabelecida entre o ser
humano e o mundo nunca é direta, mas, fundamentalmente, mediada por
vários elementos. Ao tratar dessa questão, Vygotsky (1998)
selecionou dois tipos de elementos mediadores: os instrumentos e os
signos. O instrumento é o elemento mediador entre o sujeito e o
ambiente (ex: os instrumentos de trabalho), permitindo a ampliação
de transformação da natureza. O outro elemento mediador - o signo -
age como um instrumento da atividade psicológica de maneira
semelhante ao papel de um instrumento de trabalho. Para Vygotsky
(1998), pela mediação do outro, ocorre um processo intensivo de
interações com o meio social, através do qual o indivíduo se
apropria dos objetos culturais. Esse complexo processo caracteriza o
desenvolvimento humano.
A idéia de mediação, encontrada em Vygotsky (1998),
permite defender que a construção do conhecimento ocorre a partir de
um intenso processo de interação entre as pessoas. Isso significa
que a criança desenvolve-se pela sua inserção na cultura, promovida
pela mediação das pessoas que a rodeiam.
Assim como Wallon (1968; 1989), Vygotsky (1998)
enfatizou a íntima relação entre afeto e cognição, superando a visão
dualista de homem. Além disso, as idéias dos dois autores aproximam-se
no que diz respeito ao papel das emoções na formação do caráter e da
personalidade.
Em seus estudos, Vygotsky (1998) buscou delinear um
percurso histórico a respeito do tema afetividade. Sendo assim,
procura explicar a transição das primeiras emoções elementares para
as experiências emocionais superiores, especialmente no que se
refere à causa dos adultos terem uma vida emocional mais refinada
que as crianças. É possível afirmar que, segundo o autor, o
desenvolvimento das emoções humanas é um processo muito complexo e
tal desenvolvimento está em harmonia com a própria distinção que faz
entre processos psicológicos superiores e inferiores. Ele defende
que as emoções não deixam de existir, mas se transformam, afastando-se
da sua origem biológica e constituindo-se como fenômeno histórico e
cultural.
Ao abordarem o tema da afetividade, percebe-se que
Wallon (1968; 1989) e Vygotsky (1998) apresentam pontos comuns.
Ambos apontam o caráter social da afetividade, que se desenvolve a
partir das emoções (de caráter orgânico) e vai ganhando complexidade,
passando a atuar no universo simbólico. Dessa maneira, vão se
constituindo os fenômenos afetivos. Os autores defendem, também, a
íntima relação existente entre o ambiente social e os processos
afetivos e cognitivos, além de afirmarem que ambos inter-relacionam-se
e influenciam-se mutuamente. Assim, evidenciam que a afetividade
está presente nas interações sociais, além de influenciarem os
processos de desenvolvimento cognitivo.
Essas idéias permitem afirmar que as interações que
ocorrem no contexto escolar também são marcadas pela afetividade em
todos os seus aspectos. Algumas pesquisas, como de Tassoni (2000;
2001) e Negro (2001), analisaram o papel na afetividade no processo
de mediação do professor, direcionando o olhar para a relação
professoraluno. Entretanto, é possível supor que a afetividade
também se expressa através de outras dimensões do trabalho
pedagógico desenvolvido pelo professor em sala de aula. Nesse
sentido, Leite e Tassoni (2002) salientam que ‘é possível afirmar
que a afetividade está presente em todos os momentos do trabalho
pedagógico desenvolvido pelo professor, o que extrapola a sua
relação “tête-à-tête” com o aluno’. (p. 13)
A afetividade na sala de aula: um professor
inesquecível
II